A MATERNIDADE PERFEITA DO MUNDO VIRTUAL

November 26, 2019

O fiho tá fazendo cocô amarelo? Não quer comer? Tá com brotoejas? Digite lá no “Dr. Google” e você poderá ler desde artigos científicos (ou não) até as opiniões de mamães que passaram por coisa semelhante. Poderá se tranqüilizar ou ficar mais preocupada ainda.

 

 

Eu não sei como era quando minha mãe me teve, ou quando minha avó teve minha mãe, mas tenho uma desconfiança de que deve ter sido mais  fácil. Claro que não estou falando das mil e uma modernidades que vieram com a tecnologia e o avanço da ciência: carrinhos, fraldas descartáveis (tá, elas não são ecologicamente corretas, mas são sim uma mão na roda), e todo tipo de parafernália pra tentar facilitar o dia a dia das super atarefadas mamães de hoje em dia.


Estou falando da maternagem. Da educação. Da rotina com os filhos. Daquilo que ninguém conta pra gente e que os comerciais do Dia das Mães não mostram.


A internet trouxe para nós, mamães do século 21, um sem fim de informações.


O fiho tá fazendo cocô amarelo? Não quer comer? Tá com brotoejas? Digite lá no “Dr. Google” e você poderá ler desde artigos científicos (ou não) até as opiniões de mamães que passaram por coisa semelhante. Poderá se tranqüilizar ou ficar mais preocupada ainda.


Aí chegamos às famosas redes sociais. Febre entre a maioria das pessoas, hoje em dia existem comunidades para todos os gostos: pra quem quer parto normal, pra quem quer cesárea, pra quem quer amamentar ou dar mamadeira, pra quem quer ser mãe “natureba” (sem ofensas!) e pras mães moderninhas.


A única coisa que não muda em todas elas (ou na maioria, pra não generalizar) é a inacreditável capacidade que nós mulheres temos de exaltar um ideal de perfeição que não existe e execrar quem faz diferente de nós.


Depois de muitas tentativas desisti de participar da enorme maioria das comunidades virtuais, e participo com muita parcimônia das demais.


A sensação que tenho (e acho que muitas compartilham) é a de que estou cercada de mães perfeitas por todos os lados e de que eu sou uma completa incompetente. Incompetente porque meu filho demorou pra dormir a noite toda, porque a minha filha de 3 anos nem sempre me obedece como eu gostaria e ainda pede pra darmos comida pra ela na boca porque tem ciúme do irmão mais novo, porque o meu filho de 1 dá piti quando não fazemos o que ele quer e acorda todos os dias às 5:30 da manhã não importa o que a gente faça.


Eu não consigo fazer as unhas semanalmente, cabeleireiro e depilação são artigo raríssimo, sexo rola (oba!), mas definitivamente não é todo dia, assistir um filme inteiro sem interrupções só se eu estiver disposta à ir dormir bem tarde e acordar bem cedo, porque o mais novo me tira da cama às 5:30 da manhã religiosamente. Mas parece que sou só eu, porque todas as demais estão sempre lindas, maravilhosas, com a energia lá em cima e prontas pra uma noite daquelas com o maridão depois de tomar um banho demorado e se besuntar de cremes importados daquela marca famosa que tem um cheiro que meu marido abomina (graças a Deus, porque eu odeio cremes). Bom, pelo menos é o que a gente lê por aí.


Perder a paciência? Não pode. Querer ter um tempo só seu? Não pode. Admitir que prefere ir dormir do que transar? Na-na-ni-na-não.


O negócio é dizer que dá conta de tudo magistralmente e acabar com quem diz que não consegue, talvez pra se sentir menos pior com a culpa de que, de fato, não é possível dar conta de tudo mesmo. Não sem pagar um preço por isso, e em muitos casos pode ser até a perda da nossa identidade. Não somos só mães. Bom, eu pelo menos não sou.


Será que era assim com nossas mães? Nossas avós? Quando eu penso nelas, imagino vizinhas que se ajudavam mutuamente, que entendiam que a maternidade não anda de mãos dadas com perfeição (aliás, que é isso mesmo?) que todas temos nossos dias difíceis, que todas adoecemos e precisamos de alguns momentos só nossos. Mulheres que compartilhavam deste dom maravilhoso e cheio de dificuldades que é ser mãe com mais leveza e menos cobranças.


Talvez eu esteja sendo um pouco romântica (e sem noção), mas será que não seria mais fácil admitirmos que precisamos de ajuda e de fato nos ajudarmos? Sermos mais solidárias?


Eu adoraria dar conta de tudo. Mas não dou. Fazer o quê (além de tentar não me afogar em um mar de culpa)?


Fazer o melhor que posso e ajudar a quem eu puder. Dá menos trabalho e mais satisfação do que aparentar ser perfeita 100% do tempo.

Ufa!

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