MÃE DEPRIMIDA E BRAVA

November 26, 2019

  "Fabiana disse...


     Que frieza!!!

     Passo pela mesma situação dessa mãe estou com depressão e meu filho além de perder peso nao suga tb como deveria.

     Nao conseguir amamentar nao é falta de amor...sua ***!

     Se há tentativas, mesmo q frustrantes isso ja é um ato de amor...q a mãe quer o bem...e querer mais o bem dessa criança é alimenta-la nem se for com leite artificial...falta de amor é nao dar o peito e nao dar mais nada. Se nao tem como dar o peito por problemas psicológicos q interferem tb no bebê...é melhor dar uma mamadeira com amor."


    Recebi esse desagradável mas significativo no comentário a respeito do meu post "Bebê que pega mas não suga". 

 

     Aquele post foi escrito para responder a uma enfermeira que estava lidando com o caso desse tipo e não entendia como um bebê pudesse pegar o peito e ficar lá, "enrolando", sem mamar. Ela já havia usado todas as técnicas conhecidas sem resultado. Minha sugestão foi que que o nutrimento da mãe (o conteúdo da mãe) não estava saboroso o suficiente porque a mãe não estava bem.

     A mensagem acima confirma o diagnóstico. Mãe deprimida não consegue amamentar. Ora porque não consegue dar o peito, ora porque o bebê pega mas não suga. Esta situação produz na mulher um grande sentimento de culpa que acaba, muitas vezes, por aprofundar a depressão.

     Tocar no assunto, como podem ver, é muito delicado, porque a mulher nesta situação se sente imediatamente acusada de não amar o filho, portanto se defende agredindo e rosnando. Dessa condição nasce um rolo que se prolonga no tempo e se torna muitas vezes como uma bola de neve, investindo outras áreas da vida da mulher e/ou dos que com ela vivem.

     Com toda probabilidade, ela acabará se defendo sempre mais, fechando-se como um porco-espinho quando em perigo.

     O sentimento de culpa de uma mãe é massacrante. A idéia de podermos estar prejudicando nosso filho é insuportável. Por outro lado, vivemos o mito da mãe perfeita, ao passo que fala-se tanto da importância da amamentação e, para completar o quadro, são poucos ainda os homens que contribuem de verdade no puerpério. Nunca como antes na história, as mulheres estão socialmente só. Acabou o tempo das comunidades.

     Esse conjunto de fatores torna extremamente difícil enfrentar o  problema. Eis que a mamadeira é uma ótima solução. Pelo menos teu filho não morre de fome. Mas queremos mais do que isso, para essa mulher e muitas outras.

     Precisamos desmontar idealizações e criar um mundo mais humano.  Exige-se hoje em dia das mulheres a incarnação de papeis os mais diversos de uma vez só e segundo o modelito. Nenhum homem é cobrado na vida familiar tanto quando uma mulher. Duvido, inclusive que a maioria dos homens se cobra tanto quanto faz a maioria das mulheres.

     Depressão pós-parto é um fenômeno mais comum do que parece. Ele não necessariamente tem a ver com o bebê em si (o que poderia também ser). Acredito que a depressão mais frequentemente estava latente e foi desencadeada pelo parto e o nascimento. Em seguida, se aprofunda diante das muitas e novas responsabilidades (que são de fato pesadas). Não tendo mais tempo para si, a mulher sente-se sugada num buraco negro do qual não tem a menor idéia de como sair.

     É difícil. Mas só pode-se apelar para um pouco de lucidez: mandar pro inferno as demandas excessivas e exigir um espaço para si. Está na hora de parar de esperar pelo príncipe encantado, ou por qualquer coisa de fora que vá mudar para melhor nassas vidas e passar a aprender a ter a coragem de se cuidar. Até porque, tendo escolhido ou não, agora outro ser depende de nós.



Adriana Tanese Nogueira, Psicanalista, filósofa, autora, educadora perinatal, fundadora da ONG Amigas do Parto. www.adrianatanesenogueira.org

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