EVOLUÇÃO DA MULHER NA MATERNIDADE: GRAVIDEZ, PARTO, PÓS-PARTO E ALEITAMENTO

November 27, 2019

 

Resumo

 

 

 

Este trabalho pretende realizar uma análise da evolução do papel exercido pela mulher nos primeiros eventos da maternidade: gravidez, parto, pós-parto e aleitamento.  Para isso foram realizadas algumas entrevistas com mulheres entre 27 e 83 anos de idade, que tiveram seus filhos nas décadas de 50 até meados de 2011.  Nestas entrevistas foram abordados assuntos referentes a casamento, sexualidade, gestação, parto, pós-parto, aleitamento materno e outras questões inerentes a esses assuntos.Também foi necessária uma pesquisa bibliográfica, com objetivo de traçar o contexto histórico e social na qual as mulheres estavam inseridas.  As entrevistas serviram de apoio para análise histórica, pois na história de vida de cada mulher encontramos elementos para compor uma análise dentro de um contexto histórico e social.  Mas as entrevistas não tiveram finalidade de amostragem para dados estatísticos, já que não aconteceram em quantidade suficiente para isso nem fez-se uso de nenhum método científico de amostragem.  A princípio o objetivo era resgatar tradições e rituais de pós parto por três gerações de mulheres.  Mas logo nas primeiras entrevistas notou-se que os assuntos andavam entrelaçados e a evolução se dava em outros campos.  

 

 

 

 

1. História da mulher e seu papel na sociedade e na família brasileira

 

 

 

Para entender melhor a evolução do papel da mulher na maternidade, é preciso avaliar o contexto histórico na qual as mulheres estavam inseridas. 

 

 

 

Quando os colonizadores portugueses chegaram ao Brasil, já existiam aqui tribos indígenas, que viviam num ritmo bem diferente do cotidiano europeu da época.  As mulheres das tribos tupinambás viviam um ciclo de rituais desde o nascimento até a velhice que causava certo estranhamento nos colonizadores europeus.  

 

 

 

Os rituais de gestação, parto e puerpério, foram descritos por Jean de Lery (1980) e citado por Marques (2007):

 

 

 

“O nascimento de um tupinambá era um evento que contava com a participação de todas as mulheres da tribo. Caso houvesse o nascimento de um menino, o cordão umbilical seria cortado pelos próprios dentes do pai; caso fosse menina, a mãe é que daria os primeiros cuidados. Diferentemente da sociedade européia, durante o período de gestação as mulheres indígenas trabalhavam até o momento do parto, enquanto que, após o nascimento elas voltam às suas atividades normais, e os maridos cumprem um severo resguardo em suas tabas sendo consolado pelas índias, da dor e das penas sentidas na hora do parto. Após o nascimento, as índias entravam em um período de abstinência sexual que era recomendada pelos caraíbas – chefes religiosos – para garantir que as crianças se tornem fortes e valentes.”

 

 

 

O que demonstra uma figura feminina forte e respeitada na sua comunidade, que se mantém ativa até o momento do parto e retoma suas atividades com naturalidade, sem descuidar do filho, como mencionada no texto de Marques (2007) “Os filhos eram amamentados por cerca de um ano e meio, e a mãe indígena para onde quer que fosse, levava a criança em sua typoia, ou seja, uma espécie de rede em que colocavam as crianças nas costas enquanto trabalhavam.”

 

 

 

Mas Marques (2007) cita um fato descrito em Lery (1980): 

 

 

 

“Todavia, os relatos dos tratos indígenas para com suas crias nem sempre é amistoso, Léry teria observado uma mãe índia pertencente à tribo dos caetés, tribo esta famosa por não respeitar as relações de parentesco, ter enterrado viva uma criança por não agüentar ouvir o choro insistente da mesma.”

 

 

 

Mesmo sendo os caetés uma tribo com padrão de comportamento familiar e sexual não convencional, trata-se do relato de um caso presenciado pelo autor.  Não quer dizer que este seja um ritual comum a esta tribo.  Podendo inclusive tratar-se de fato relacionado a algum problema da mãe, não diagnosticado na época, tal como depressão pós-parto.

 

 

 

Quanto ao comportamento sexual, Lery (1980) relata que era comum nessas tribos as relações incestuosas, a perda da virgindade prematura de ambos os sexos e as liberdades sexuais.  As moças índias poderiam manter relações com rapazes, indígenas ou até europeus, sem qualquer constrangimento.  Porém, esses instintos sexuais muitas vezes eram coibidos após o casamento pelo marido: “Um homem traído poderia repudiar a mulher faltosa, expulsa-la ou até mesmo mata-la pautando-se somente na lei natural.” Marques (2007)

 

 

 

No início da colonização do Brasil pelos portugueses foi muito comum que estes tomassem a força mulheres indígenas, e depois as escravas africanas.  Segundo (Burns, 1993), a escassez de mulheres portuguesas conferia aos homens certa licenciosidade sexual.  

 

 

 

As mulheres portuguesas chegaram ao Brasil colonial por volta de... mas a situação dessas mulheres era de submissão ... conforme descrito por DESOUZA ()

 

 

 

Segundo a descrição de DESOUZA ()

 

 

 

“Quando as mulheres brancas chegaram durante a era Colonial, elas mantiveram o arquétipo do modelo de Maria . elas eram assexuadas; suas vidas restritas aos limites da casa ou da Igreja. As mulheres eram estereotipadas como fracas, submissas, passivas e sem poder na área pública. Em vez de receber uma educação formal, elas eram treinadas para o casamento (da Costa, 1985), para administrar a casa, criar os filhos, e tolerar as relações extra-matrimoniais do marido com as escravas (McCann & Conniff, 1989, p. xii).”

 

 

 

Desta forma, pode-se notar que a mulher da era Colonial era resumida a maternidade, mas não uma maternidade livre e autêntica, uma maternidade amarrada aos interesses de suas famílias.  

 

 

 

Nas pequenas propriedades rurais as famílias cresciam livremente. Sem muitas convenções, mas nas grandes propriedades e nos centros urbanos o casamento e os filhos eram parte dos negócios das famílias, como descrito por Priore(XXXX).

 

 

 

“..., eram comuns as núpcias entre parentes próximos, primos e até meio-irmãos. Graças aos casamentos endogâmicos, as famílias senhoriais ampliavam sua área de influência, aumentando também as terras, escravos e bens. O casamento com ‘gente igual’ era altamente recomendável e poucos eram os jovens que rompiam com essa tradição. ... As mulheres pouco saíam de suas casas, empregando seu tempo em bordados e costuras, ou no preparo de doces, bolos e frutas em conservas. Eram chamadas de ‘minha senhora’, pelos maridos.”

 

 

 

As mulheres do período colonial costumavam parir em posição agachada ou sentada, com a ajuda das parteiras. Estas últimas conheciam a gravidez, o puerpério e manobras que facilitavam o parto. Desta forma tinham grande prestígio na sociedade.  Além disso, as mulheres preferiam as parteiras aos médicos, por razões psicológicas e sociais, pois estes eram tidos como fenômenos puramente femininos, não cabendo aos médicos, profissão puramente masculina naquela época.

 

 

 

Assim, os poucos médicos da época não eram familiarizados com os eventos relacionados ao nascimento.  Esses eram deixados aos cuidados das próprias mulheres, sendo o trabalho das parteiras desvalorizado e não remunerado (VELHO et al, 2012).

 

 

 

Durante a era Imperial, as mulheres lutaram para ampliar seus papéis na sociedade. A rígida disciplina patriarcal que tinha excluído as mulheres de classes média e alta enfraqueceu-se: tornou-se de bom-tom o trânsito de mulheres nas ruas e sua posição melhorou no mercado de trabalho (da Costa, 1985). Puderam-se ver avanços na luta por direitos no campo do trabalho, da educação e da política, áreas tipicamente dominadas pelos homens.

 

 

 

“Na virada do século, as mulheres ganharam emprego em ferrovias, nas atividades telegráficas, nos correios, na enfermagem e secretariado, e na área de produção (Burns, 1993, Hahner, 1990). De 1872 a 1900, a percentagem de professoras nas escolas primárias dobrou, de um terço para dois terços, pois o magistério era uma extensão natural do papel das mulheres como cuidadoras, mantendo o arquétipo do modelo de Maria.” (Hahner, 1990).

 

 

 

Apesar de o cirurgião inglês Peter Chamberlain ter inventado e passado a utilizar o fórceps obstétrico no final do século XVII, iniciando na Europa a intervenção masculina no parto e fazendo com que o trabalho da parteira começasse a sofrer declínio, aqui no Brasil as gestantes ainda optaram por ter filhos com parteiras em suas casas por muito tempo.  Como dito em (VELHO et al, 2012):

 

 

 

 

 

 

“No início do século XX, os médicos formados nas faculdades brasileiras não possuíam conhecimentos práticos, apenas teóricos, pois nos hospitais não havia gestantes internadas para parir.”

 

 

 

 

 

 

 

Somente após a Segunda Guerra Mundial, o parto no Brasil foi progressivamente institucionalizado, com o crescimento do número de partos hospitalares. 

 

 

 

As modificações da posição vertical para a deitada, litotômica, semi-sentada, foram sugeridas em Londres e Paris, tendo como causa a comodidade do médico ou do pessoal responsável pelo atendimento ao parto. Ressaltam-se, nesta mudança, o desrespeito aos mecanismos fisiológicos do parto e o prejuízo na qualidade do atendimento ao parto normal de baixo risco.  Essa alteração passa a ser adotada pela maioria das escolas médicas (VELHO et al, 2012).

 

 

 

2. As histórias de maternidade

 

 

 

Para complementar o traçado deste trabalho, foram realizadas entrevistas com mulheres nascidas entre 1930 e 1987. Nessas entrevistas foram abordados assuntos gerais sobre a maternidade, tais como métodos anticoncepcionais, casamento e sexualidade, gestação, parto, pós-parto, aleitamento materno, cuidados com o bebê e saúde da mulher.  O objetivo foi captar várias características da evolução do papel da mulher através das histórias de maternidade.

 

 

 

Foram realizadas 16 entrevistas com os seguintes perfis:

 

 

 

Grupo 1 – mulheres que tiveram filhos nas décadas de 50 e 60

 

 

 

 

Apelido

 

Idade

 

Quantidade de filhos

 

A

 

83

 

06

 

B

 

79

 

07

 

C

 

78

 

10

 

D

 

81

 

11

 

 

 

Grupo 2 – mulheres que tiveram filhos nas décadas de 70 e 80

 

 

 

 

Apelido

 

Idade

 

Quantidade de filhos

 

E

 

55

 

3

 

F

 

55

 

3

 

G

 

60

 

3

 

H

 

53

 

3

 

I

 

48

 

3

 

 

 

Grupo 3 – mulheres que tiveram filhos a partir da décadas de 90

 

 

 

 

Apelido

 

Idade

 

Quantidade de filhos

 

J

 

29

 

1

 

L

 

35

 

1

 

M

 

31

 

1

 

N

 

27

 

1

 

O

 

32

 

1

 

P

 

31

 

1

 

Q

 

36

 

1

 

 

 

A entrevistas foram realizadas pessoalmente com as mulheres dos grupos 1 e 2, e virtualmente com as mulheres do grupo 3.   O objetivo não era extrair dados estatísticos ou quantitativos e sim captar informações qualitativas que nos remetessem a uma análise evolutiva do papel da mulher na família e na sociedade.  Esta análise não pode ser traçada de maneira geral, por isso serão apresentadas por assunto, já que nas entrevistas livres as mulheres tinham perguntas direcionadas, mas buscou-se deixar que falassem livremente para que pudesse emergir os assuntos que lhes parecessem mais importantes.

 

Nas subseções seguintes será realizada uma análise dos principais assuntos abordados nas entrevistas sobre maternidade.

 

 

 

2.1. Casamento e sexualidade

 

 

 

Durante a pesquisa bibliográfica notou-se que a mulher brasileira, desde a época da colonização casava-se conforme a vontade do patriarca de sua família.  Não havia a livre escolha do parceiro, principalmente nas famílias mais ricas ou tradicionais.

 

 

 

Dentre as mulheres entrevistadas surgiu no Grupo 1 um caso de casamento arranjado.  Conforme relato:

 

 

 

“Eu tinha um namorado de quem eu gostava, mas meu pai não quis que eu casasse com ele.  Então ele trouxe esse e mandou eu casar.  Eu queria mesmo é ter casado com o que era meu namorado antes...”A

 

 

 

As demais mulheres do grupo 1 afirmam ter se casado por vontade própria, com maridos escolhidos por afinidade, mas sem ter tido muito contato antes do casamento.

 

 

 

“O pai do meu marido me viu e gostou muito de mim.  Falou que queria me casar com o filho dele.  Quando nos vimos a gente se encostou nos braços e se gostou.  E oito meses depois casamos.  E fomos muito felizes.”C

 

 

 

“Tive muita sorte... meu marido era muito bom pra mim.  Me ajudava com as crianças... sempre me ajudou com tudo... era muito bom mesmo...”

 

 

 

As mulheres do Grupo 1 se casaram todas antes de completarem vinte anos de idade.  Todas alegaram saber pouco ou nada sobre sexo ou mesmo sobre o próprio corpo.

 

 

 

“Eu tomei um susto quando ele veio (na noite de núpcias)... eu não esperava aquilo...”D

 

 

 

Dentre as mulheres do segundo grupo notamos uma evolução na livre escolha do parceiro.  Todas afirmaram ter se casado apaixonadas e terem escolhido sem influencia dos pais os maridos. Neste grupo já aparecem mulheres que estavam informadas sobre sua sexualidade antes do casamento, mas as informações vinham geralmente de fontes não muito confiáveis, tais com amigas, familiares mais velhas de sua geração que já possuíam alguma experiência.  Algumas tinha informações em revistas femininas da época.  As informações eram em geral sobre a existência do ato sexual e como este se dava.  Mas muito pouco se falava sobre o funcionamento do próprio corpo, hormônios, métodos anticoncepcionais, fisiologia e saúde da mulher.

 

 

 

No terceiro grupo não existe mais a possibilidade de casamento arranjado pelos pais.  Temos mulheres que se conhecendo bem seu corpo e sua sexualidade.  As mulheres desta geração conhecem bem o funcionamento do seu corpo, desde a adolescência, apesar de se casarem com bem mais idade que os grupos anteriores.

 

 

 

Nas entrevistas não foram aprofundadas questões sobre a qualidade da vida sexual das entrevistadas.

 

 

 

2.2.  Concepção e contracepção

 

 

 

As mulheres do primeiro grupo expressam sempre uma conduta muito embasada na religiosidade quando abordadas sobre contracepção.  Sabe-se que esta é uma geração fortemente influenciada pela igreja Católica, que não aceita métodos contraceptivos artificiais.  

 

 

 

“Eu só parava de amentar um filho quando já estava querendo outro... porque era parar de dar o mama e logo engravidada.” C

 

 

 

“Eu aceitei todos os dez filhos que Deus me deu, porque eu tinha um voto com Deus e não podia renegar filho...”C

 

 

 

O planejamento familiar não existia para as mulheres deste primeiro grupo. 

 

 

 

“Tive um filho atrás do outro.  Foram 6 e só não tive mais porque nos separamos...”

 

 

 

As mulheres do segundo grupo afirmam que fizeram uso de métodos anticoncepcionais, geralmente a pílula, por muito tempo.  Mas o uso nem sempre era orientado por médico.  A maioria das mulheres tomava a pílula sem entender direito seu funcionamento. Tanto que muitas engravidavam por falhas na execução.

 

 

 

“Eu comecei a tomar pílula logo que casei, porque meu marido disse que não queria ter filhos logo... mas eu mesma  nem sabia como funcionava, minha mãe que trouxe e me deu.”

 

 

 

“O primeiro filho foi planejado, mas os outros dois não.”

 

 

 

“Eu tomava remédio, mas mesmo assim engravidei duas vezes sem querer... um porque eu tomei um remédio que cortou o efeito e outro porque eu fiz uma pausa e aconteceu.”

 

 

 

No terceiro grupo notamos como a informação sobre o funcionamento do próprio corpo aliada a um acompanhamento médico eficiente pode fazer diferença no planejamento familiar.  A grande maioria das entrevistadas diz ter engravidado sempre de forma planejada.   Mesmo as que tiveram concepções não planejadas disseram estar conscientes de que estavam correndo este risco durante o ato.

 

 

 

“Eu não estava tomando nada, sabia que corria o risco.”

 

 

 

“Eu não planejei, mas também não evitei...”

 

 

 

“Eu estava tratando ovário policístico e achei que não corria risco de engravidar... mas foi bom porque eu queria mesmo, mas não estava planejando para este ano.”

 

 

 

Apenas uma mulher afirmou ter engravidado por falha na execução do método anticoncepcional:

 

 

 

“Eu achei que poderia dar intervalo no uso deste anticoncepcional, mas ele era de uso contínuo e eu vacilei...”

 

 

 

2.2. Gestação

 

 

 

Mesmo as mulheres do primeiro grupo, que tiveram seus filhos nas décadas de cinquenta e sessenta, já tinham acesso ao sistema de saúde.  Mas neste grupo não foram frequentes as consultas de prenatal. 

 

 

 

“Eu nunca fiz uma consulta de pre-natal.  Ganhei todos os filhos em casa...  não tinha nada disso que tem hoje.”

 

 

 

“O dr. X que cuidou de mim, ele falou que ia ser muito difícil eu engravidar porque tinha útero infantil.  Mesmo assim eu tive 10 filhos. Porque eu fiz um voto com Deus e ele me deu 10 filhos.”

 

 

 

Quando a moradia era na zona rural dificilmente a mulher buscava pelo sistema de saúde.  Quando a moradia da família era próxima às cidades, as consultas ficavam mais comuns, pela facilidade de acesso.  Porém percebe-se que consultas só eram feitas quando existia algum problema, não era uma prática de rotina preventiva.

 

 

 

2.3. Parto

 

 

 

Os assuntos relacionados ao parto sempre se sobressaiam nas entrevistas.  Percebe-se que este evento é o mais marcante para as mulheres e lhes imprimem marcas profundas.  No grupo 1, mesmo tendo mais de cinquenta anos de parto as mulheres lembram com detalhes desses eventos.

 

 

 

As mulheres desta época já tinham sistema de saúde a disposição mas todas tiveram seus primeiros filhos em casa, com parteiras, mesmo quando moravam na zona urbana.

 

 

 

Das quatro mulheres deste grupo, apenas uma relatou ter tido todos os partos em casa, com parteira e sem qualquer complicação.

 

 

 

“Meus partos sempre foram muito tranquilos... doía mas eram bem rápidos. Nunca tive problema.” B

 

 

 

As demais tiveram bons partos e partos complicados. 

 

 

 

“Tive três nenéns em casa e três no hospital.  Da primeira foi bem demorado porque foi a primeira.  Da segunda foi traquilo, mas a terceira tava dobrada [pélvica], eu cheguei a desmaiar duas vezes, precisou de duas parteiras. No penúltimo eu tive hemorragia interna, o sangue jorrou lá no corredor do hospital.  Eu desmaiei e só fui acordar de tardinha... os médicos me chamavam, eu ouvia mas não conseguia responder... parecia que eles estavam longe mas eles estavam perto.” A

 

 

 

“O primeiro foi tranquilo, mas no segundo eu tive uma hemorragia e quase morri, fiquei desacordada muito tempo e minha mãe me fez jurar que eu não ia ter neném em casa mais, que da próxima vez eu ia para o hospital.  E eu fui... depois desses dois todos os outros 8 nasceram em hospital.  Mas todos  normal.” C

 

 

 

Uma das entrevistadas era neta de parteira, mas sua própria mãe morreu de parto no segundo filho, antes dela completar 1 ano de idade.  Ela conta que muitas vezes acompanhava a avó que ia ajudar as mulheres em trabalho de parto.  Presenciou muitas intercorrências e tinha muito medo de morrer no parto.

 

 

 

“Muita gente morria sem conseguir colocar o menino para nascer” A

 

 

 

Esta mesma que teve três partos em casa e três em hospital relata:

 

 

 

“No hospital era melhor, mas era com enfermeira, médico só vinha consultar depois que o neném estava embrulhadinho para ver se estava tudo bem.”

 

 

 

Neste caso a mulher preferia o hospital por se sentir mais segura.  Sua crença era de que a mulher não tinhas forças suficientes para parir.  O que pode ser notado pela fala:

 

 

 

“Sentia mal a noite inteirinha... fazia força sem aguentar... porque a gente era tudo fraca na roça.  Eu não sei como eu aguentei.”

 

 

 

Sobre a prática das parteiras relata-se que logo que entravam em trabalho de parto mandavam alguém chamar a parteira, que muitas vezes vinha de longe, a cavalo, sem remuneração, ficava por 3 a 4 dias com a mulher para acompanhar o parto e ensinar sobre os primeiros cuidados com o bebê, principalmente se fosse o primeiro filho.  Sobre sua prática comentaram:

 

 

 

“A parteira chegava e dava um banho quente na gente com um ramo que chamava esperto.  Colocava pano quente na barriga da gente e ficava apertando a gente aqui [por cima da barriga].  Tinha umas que até amarravam um cordão para o neném não subir... quanta ignorância né? [risos]” A

 

 

 

Houve relatos de partos pélvicos por 3 das 4 mulheres deste primeiro grupo:

 

 

 

“Era tranquilo.  Doía... doía muito, mas não costumava demorar. O que mais demorou foi o XXX que nasceu virado [pélvico].  Mas foi tranquilo também” C

 

 

 

“A minha terceira nasceu dobrada... de bumbum... precisou de duas parteiras.  Eu sinto uma dor aqui [na bacia] até hoje que eu não aguento.”

 

 

 

“O YYYY nasceu virado e me rasgou toda... Deus me livre... jurei nunca mais ter filho, mas aí parece que veio mais um atrás do outro.”

 

 

 

Neste primeiro grupo tivemos relatos de partos gemelares, em hospital.  

 

 

 

“Foi tranquilo, nasceu um e demorou um pouco até que nasceu o outro... ” E

 

 

 

No segundo grupo as mulheres não foram relatados partos domiciliares.  Todas as entrevistadas tiveram seus filhos em hospital.  Três por parto normal e duas por cesárea. Dentre as que tiveram parto normal percebe-se comum a episiotomia como meio de ajudar a mulher.

 

 

 

“Eu nunca tive medo de parto porque vi minha mãe tenho um monte de filho em casa.  Eu ficava muito tranquila e quando começava a sentir as dores eu arrumava minhas coisas e mandava chamar meu marido.  Quando chegava no hospital a gente ficava lá sozinha e o médico vinha para olhar se já estava nascendo ou se ia demorar.  ... Lembro que eu achava que o médico tinha o poder de aliviar minha dor e ficava muito feliz quando ele chegava pra me olhar.  ... Era comum fazer um corte para ajudar a nascer mais rápido.  Achava bom porque o médico ajudava a gente.”S

 

 

 

 

 

 

 

Nenhuma das entrevistas diz ter optado por cesárea.

 

 

 

“Estourou a bolsa e eu fui para maternidade. Ali esperei por 24 horas e não tive dilatação, então tiveram que fazer cesárea.  No segundo foi a mesma coisa, já no terceiro como eu ia ligar o médico já marcou a cirurgia antes.” M

 

 

 

“A gente ganhava neném em hospital público, então não tinha essa de escolher cesárea não.  Não escolhia nem o médico... Pra mim cesárea nem passava na minha cabeça. ” S

 

 

 

“Por eu ter perdido um neném que passou da hora e morreu na minha barriga, no segundo filho o médico falou logo na primeira consulta que eu não podia ter parto, que tinha que marcar cesárea.  Ele até falou para secretária [do hospital]: ‘Essa tem que marcar porque ela tem problema pra ganhar normal’.  E na terceira gravidez eu já fui atrás dele de novo pra ele me ajudar a marcar.”

 

 

 

As 7 mulheres do terceiro grupo que responderam a entrevista por meio virtual foram contactadas através de uma clinica de gestantes com profissionais que incentivam o parto humanizado.  Por isso, todas as entrevistadas tentaram ter parto normal, mas apenas 2 tiveram parto normal e as outras 5 tiveram cesáreas.

 

 

 

Nos relatos sobre parto as mulheres que tiveram cesárea pode-se notar alguma frustração em relação a expectativa em ter um parto normal:

 

 

 

“... A cesárea é algo extremamente invasivo e traumatizante....”

 

 

 

“Eu não queria ter feito cesárea e isso me incomodou muito, a cirurgia doía muito.”

 

 

 

Além de relatos de muita dor, problemas de cicatrização e dificuldades para cuidar do bebê por restrição nos movimentos.

 

 

 

Não faltando experiências traumáticas de violência obstétrica:

 

 

 

 “... Passei por um trauma horrível durante meu parto. Estava preparada para um parto normal e contava com meu marido do meu lado para acompanhar o nascimento de nosso primeiro filho. Até a hora que entrei na sala de parto estava confiante nisso. Na hora em que minha obstetra falou com o anestesista que meu marido estava aguardando para assistir ao parto, o médico sequer se deu ao trabalho de olhar para mim e simplesmente gesticulou, de costas, que não permitiria.  Com esse ato de extrema sensibilidade, minha pressão disparou de 12:8  para 25:18... e aí todos os meus sonhos de um lindo parto normal foram por água abaixo. Conheço meus direitos, inclusive sou advogada, sei que uma lei federal me garante o acompanhamento de alguém de minha escolha. Acho que esse foi o maior problema, fiquei dividida entre fazer valer meu direito e discutir com o médico e tentar me acalmar e garantir a segurança do meu filho, com isso fui ficando com um nó na garganta e me desesperando, ficando sem ar... Sem contar que o médico me chamou de “fresca” porque reclamei de dor quando me colocaram a sonda. Eu tive uma gravidez calma, tranquila, mas tenho 35 anos, acima do peso e com histórico de eclampsia na família, então quando minha pressão disparou fiquei sem opções e escolhi garantir a segurança de meu bebê.”

 

 

 

Já as mulheres que tiveram partos normais, como desejavam, relatam grande satisfação:

 

 

 

"No primeiro mês do pós-parto em pensava no parto sim, lembrava todo dia, pois foi muito intenso e marcante a experiência."

 

 

 

"Sempre acreditei que teria parto normal e o pós parto não existiria, foi maravilhoso, espero repetir!"

 

 

 

 

2.4. Puerpério (resguardo)

 

 

 

As mulheres do primeiro grupo relatam que o puerpério ou período de resguardo, como era chamado, era cercado por mitos e tradições.  Os rituais do puerpério eram seguidos a risca e nunca questionados pelas mulheres que as recebiam de suas matriarcas ou das parteiras.

 

 

 

“Quando a mulher ganhava neném pela primeira vez a parteira ficava com ela por uns 3 ou 4 dias para ensinar a cuidado do neném e curar umbido.  Depois sempre tinha ajuda de uma mulher mais velha que já tinha tido menino.” A

 

 

 

Quanto a saúde da mulher os cuidados eram principalmente em relação a prevenir ou tratar casos de hemorragia, banhos de assento e cuidados com repouso físico e alimentação.

 

 

 

“A gente ficava toda machucada então tinha que ficar deitada ali uma semana mais ou menos.”

 

 

 

Apesar do papel das parteiras ser ainda muito importante para os grupos femininos desta geração, elas não recebiam nada por isso e em pouco tempo tinha que voltar para suas casas para cuidar de suas famílias.  O zelo com a mulher era responsabilidade das mulheres mais velhas da família.  Em algumas comunidades as mulheres eram mais unidas e costumavam se ajudar.

 

 

 

“A parteira ajudava a gente a tomar banho e só.  Não tinha muita coisa não.” A

 

 

 

“Minha mãe me ajudava, ficava comigo nesta época.  Até eu poder fazer as coisas em casa.” B

 

 

 

“Meu primeiro filho eu fui pra casa da minha mãe para ganhar lá e ela poder me ajudar depois.  Mas nos outros eu tinha titia.  Era uma tia solteira que morava comigo e me ajudava muito... foi uma segunda mãe para os meus filhos.” C

 

 

 

“Eu não podia guardar resguardo porque eu não tinha ninguém para fazer as coisas pra mim. [órfã de mãe]. Com três dias já estava lavando roupa e cozinhando.  Nos primeiros três dias minha irmã vinha e cozinhava, mas só os primeiros três dias.” A

 

 

 

“A mãe sempre vinha para ficar comigo quando tava pra ganhar neném.  Ela ficava um tempo, até eu poder fazer as coisas.  As vezes tinha outra filha ganhando perto e ela não podia ficar muito tempo.”

 

 

 

“Eu cuidava dos meus e ainda ia ajudar os outros que me chamavam para dar mama e curar umbigo.”

 

 

 

Um dos cuidados era com a alimentação da mãe:

 

 

 

“Tinha muita coisa que não podia comer... mas acho que era bobagem porque hoje as mulheres comem de tudo e não faz mal.  Mas naquela época não podia comer um monte de coisa, tudo que era remoso não podia: carne de porco, couve, vê... até couve... acho que era tudo bobagem.”B

 

 

 

“Nos primeiros dias era só caldo de galinha... hummm era uma delícia o caldo que minha mãe fazia pra mim.  Eu adorava ficar de resguardo e comer aquela comida que minha mãe fazia pra mim.” B

 

 

 

“Só podia comer umas sopa de galinha... ai... eu não gostava não...” C

 

 

 

A alimentação também era tida como fator fundamental para o sucesso no aleitamento:

 

 

 

“Tinha que tomar bastante sopa e comer canjica, para dar bastante leite.” A

 

 

 

“A gente tomava um caldo forte de galinha que era bom para a mulher se recuperar e pra dar leite forte.” D

 

 

 

Outros rituais eram estabelecidos, mas nem as próprias entrevistadas souberam explicar o porque:

 

 

 

“Não podia lavar a cabeça.. não sei porque.” B

 

 

 

“Quando tive neném em casa minha mãe não deixou tomar banho direito, não lavava o cabelo, não podia colocar o pé no chão frio, tomar sereno... um monte de coisas que hoje ninguém faz. Já quando tive filho no hospital já fizeram de tudo.” C

 

 

 

Sobre os cuidados com o bebê o principal medo era do “mal de sete dias”, nome dado a contaminação por tétano do coto umbilical.  O “cuidar do umbigo” era de grande preocupação para as mães da época:

 

 

 

“A parteira ensinava a cuidar do umbigo... tinha que passar pó de fumo e azeite.” A

 

 

 

Quanto às visitas, em algumas famílias não pareceu haver muita preocupação em poupar a mãe durante o resguardo, muito menos o bebê recém-nascido.

 

 

 

“O dia inteiro tinha visita que vinha pra comer... vinha todo mundo e gente que a gente nem conhecia, vinha pra comer.  Durante uns três dias era assim... E as pessoas chegavam e pegava e desembrulhava o menino da gente pra ver, pra ver umbigo... O povo da roça é muito esquisito... E ainda ficavam falando que não ia vingar por isso ou por aquilo.  Eu ficava com muita raiva.” A

 

 

 

 

“Na roça todo mundo ia ver mesmo... queriam ver o neném e saber como foi... os homens ficavam bebendo e as mulheres queriam ver a criança.”

 

 

 

Conforme os relatos das mulheres do grupo 2, os cuidados de pós-parto eram ministrados principalmente por mulheres da própria família.  A alimentação seguia com algumas tradições herdadas da geração anterior, mas não se sustentavam tantas privações.  Sem contar que esta geração já tinha acesso a mais produtos alimentícios, pois já tinha mais acesso a produtos industrializados.  Os cuidados com o bebê eram repassados de mãe para filha e até as simpatias faziam parte do repertório:

 

 

 

As visitas em excesso nos primeiros dias de puerpério e o desrespeito ao ritmo do bebê ainda se faziam presentes e são muitas vezes relatados com mágoa pelas mulheres.

 

 

 

“No caminho do hospital para casa nós já paramos para meu marido mostrar a menina para as sobrinhas dele.  Uma loucura... E quando cheguei em casa a casa já estava cheia.  E eu com uma dor de cabeça danada, um calor infernal e todo mundo conversando e falando alto.  Meu marido fazendo a maior algazarra... Minha sogra que me fechou no quarto com a neném e colocou todo mundo para o quintal.  Ainda ficaram lá até de noitinha.”

 

 

 

O terceiro grupo de mulheres passou a contar com ajuda profissional para apoiá-las no pós-parto, tais como doulas, enfermeiras, babás e domésticas.  Além de contar ainda com o apoio familiar, tais como mães, sogras, irmãs e até amigas.  Os pais passam a desempenhar aqui um papel mais ativo.  Alguns fazem uso apenas de licença paternidade, mas outros chegam a pegar um mês de férias para participar de todos os eventos desta primeira etapa do puerpério.

 

 

 

"Meu marido ficou em casa por quase um mês, já que seu trabalho permitia que ele trabalhasse de qualquer lugar. Sempre foi um super companheiro e curtiu cada momento, fazia questão de trocar todas as fraldas, dava banho e ficava ao meu lado durante as mamadas de 3 horas, me incentivando e me mantendo acordada, mesmo de madrugada."

 

 

 

“Contei com a ajuda do meu esposo em nossa casa, ele tirou 15 dias de férias e atendia a todas as necessidades,  minhas e do nosso bebe.”

 

 

 

"Ele teve 7 dias de licença paternidade e depois desse período ele me ajudava bastante nos fins de semana e quando era muito apertado durante a semana também. Hoje ele ajuda muita mais que no início ."

 

 

 

Quanto a recuperação as mulheres passam a ter que cuidados pós-cirúrgico:

 

 

 

“Pensei que fosse me recuperar mais rápido, mas a cesárea é algo extremamente invasivo e traumatizante, ainda hoje sinto dores e dormência na barriga.”

 

 

 

Quanto as visitas e privacidade da mulher com seu bebê tem-se notado alguma melhora, mas ainda existem queixas sobre interferências externas nos primeiros dias após o parto.

 

 

 

“Uma das maiores dificuldades no pós-parto é lidar com a quantidade de gente dando palpite.  As divergências entre dar ou não remédio.  Só aumentam a insegurança de ter que cuidar do bebê.” G3 - M

 

 

 

2.5. Aleitamento materno

 

 

 

Quanto ao aleitamento materno, no grupo 1 todas as mulheres disseram que era muito comum amamentar os filhos.  Só se a mãe tivesse algum problema que não amamentava.  Quem ajudava a mulher na tarefa de amamentar geralmente era uma mulher da família que já tivesse mais experiência. 

 

 

 

Porém uma das mulheres relatou que era comum que enquanto a mãe não estivesse produzindo leite suficiente era chamada uma outra mulher da comunidade que estivesse amamentando para alimentar o bebê. 

 

 

 

“Eu dava muito leite... antes do neném nascer meu leite já vinha, então sempre me chamavam para dar mama pra menino novo que a mãe não tinha descido leite ainda.  E tinha mulher que demorava a descer o leite.”

 

 

 

Mas das 4 entrevistadas neste grupo, 2 afirmaram que complementavam com mamadeira a alimentação dos bebês a partir de 40 ou 60 dias.  Mas todas afirmavam que se costumava manter a amamentação por mais ou menos 2 anos, ou até engravidar novamente.  Alimentos sólidos eram introduzidos entre 6 e 8 meses.  Algumas observavam o nascimento dos dentes para iniciar alimentação sólida.

 

 

 

“Eu não era muito boa de leite não.  Tinha pouco, por isso logo dava mamadeira junto.  Lá com uns 40 dias já começava com mamadeira.” B

 

 

 

“A gente amamentava muito tempo... até grandinho... 2 ou 3 anos.  Só parava quando engravidava de novo.  Mas dava mamadeira também quando dava com uns 2 meses começava a dar para sustentar mais.  Dava um ou duas mamadeiras por dia.” C

 

 

 

As mulheres do segundo grupo afirmam terem amamentado seus filhos pelo menos durante o primeiro mês de vida. Mas diversos foram os motivos de desmame. 

 

 

 

“O bebê chorava e me falavam que meu leite não devia estar sustentando então eu dava mamadeira.  Mas lembro que jorrava leite na parede do banheiro quando eu ia tomar banho.” S

 

 

 

“Da minha segunda filha eu tive que voltar ao trabalho quando ela estava com um mês porque se eu não trabalhasse não ganhava e o meu dinheiro fazia falta, então comecei com mamadeira logo para ela acostumar.” S

 

 

 

“A primeira eu nem amamentei porque tive complicações na cirurgia e com os remédios fortes o leite secou.  O segundo mamou uns dois ou três meses, depois ia largando e aí a gente achava que tava na hora de dar mamadeira. O terceiro que mais mamou, mas largou sozinho por volta de 9 meses.  E eu ainda tinha bastante leite porque até dei mama para o filho de uma vizinha por um tempo.” M

 

 

 

“O médico mesmo já manda dar mamadeira para o bebê ficar mais forte.”

 

 

 

As consultas pediátricas não eram feitas com a mesma regularidade de hoje em dia e as orientações eram muito controversas.  A influência da indústria alimentícia era grande e as próprias mulheres acreditavam que o leite industrializado era melhor que o delas.

 

 

 

Nesta época a amamentação, assim como o parto normal, perderam espaço para os processos tecnológicos até por uma questão de status.  Foi uma geração que conquistou poder aquisitivo e tinha orgulho de poder comprar leite e pagar médico.  E acreditava-se estar dando o melhor para os filhos.

 

 

 

As mulheres do terceiro grupo já tiveram seus filhos em meio a campanhas sobre amamentação e tiveram acesso a informações de muito mais qualidade.  Além disso tem acesso a planos de saúde, que possibilitam consultas médicas mais sistemáticas proporcionando melhor orientação.  A conscientização dos profissionais de saúde quando aos benefícios do aleitamento materno também possibilitam melhor orientação para as famílias.  Mesmo assim ainda surgem diversos problemas mas amamentar, mas os casos de sucesso se sobressaem.

 

 

 

"Amamentar, é difícil, pois dói muito no início, mas vale a pena, amamentei minha filha por 6 meses e ela é muito forte, tem 1 ano e 3 meses e nunca teve gripe ou febre.  Acredito que o tipo de parto e a amamentação a ajudaram muito." L

 

 

 

"O peito vazando e quase empedrando, o bico com fungo doendo e passando sapinho para a nenem. Ter que ficar com o peito pra fora e muito ruim. " G3 M

 

 

 

“Meu bebê mamava com muita frequência, quase que o tempo todo, no primeiro mês.  Mas a pediatra já havia me dito que era normal então eu persisti na livre demanda e amamentação exclusiva.  Com dois meses e meio ele começou a dormir a noite toda.  Mamou exclusivo até os 6 meses completos e continua mamando, apesar de comer muito bem.  Acho que vou amamentar até completar um ano, mas vamos ver, até lá...”

 

 

 

"Eu sempre fui abençoada com muito leite, tanto que até hoje ainda mando para um banco de leite, mas quando vieram as fissuras tive muito medo de não conseguir amamentar, pois a dor era terrível e sangrava também.  Sem contar o medo de empedrar as mamas, porque o leite jorrava o tempo inteiro. Foi desesperador pensar na possibilidade de não conseguir amamentar sabendo o quanto isso era importante para meu filho, me sentia destruída em privar meu filho de algo tão precioso como se fosse menos mãe, foram muitas lágrimas e muito medo.  Para mim, amamentar sempre foi mais de alimentar meu filho, era meu maior vínculo com ele, literalmente um ato de amor.  Todo esse conflito durou apenas minutos, porque quando Davi quis mamar, eu simplesmente rezei, pedi muito a Deus, engoli o choro e amamentei meu filho. Com o tempo deu tudo certo usei uma pomada cicatrizante que literalmente salvou meu peito (Lansinoh), que não fazia mal para o bebê e Davi é hoje um mamador de carteirinha."

 

 

 

2.6. Depressão pós-parto

 

 

 

A questão da depressão pós-parto ou mesmo baby blues não pode ser avaliada apenas nas entrevistas, porém tentou-se durante as entrevistas levantar evidencias sobre a possibilidade de episódios desses males.

 

 

 

Na época dos partos das mulheres do grupo 1 não se falava muito ou quase nada sobre depressão pós-parto.  Então este não foi relatado diretamente por nenhuma dessas mulheres.  Mas ao serem questionadas sobre tristeza ou episódios de choro após nascimento dos filhos, uma das entrevistadas relatou ter ficado muito triste quando seu primeiro filho teve icterícia e que achou que este iria morrer.  A possibilidade de perder um filho tão esperado, já que esta mulher teve dificuldades para engravidar a primeira vez, lhe fez sentir-se desprovida de merecimento da maternidade.  Ela disse que ainda:

 

 

 

“Só passou mesmo essa tristeza que me perturbava quando o menino já estava com uns oito meses.  Um dia passou... e eu esqueci isso.”

 

 

 

Outra mulher relatou momentos de muita frustração e revolta após partos complicados, que fizeram uso de fórceps e bebê pélvico.  Mas não se pode afirmar que tenha evoluído neste sentido.

 

 

 

Dentre as mulheres do segundo grupo também não houveram relatos de tristeza ou depressão pós-parto.

 

 

 

“A gente ficava muito preocupada com tudo... com criar mesmo os filhos... mas não sei se pode se dizer que era depressão, acho que era muita preocupação mesmo.”

 

 

 

No terceiro grupo, talvez por estarem com as experiências mais recentes, houve alguns relatos de momentos de choro ou tristeza. 

 

 

 

“Chorei muito relembrando meu parto e quando minhas mamas racharam e sangraram, pois a dor era terrível. Chorava de emoção a cada instante que olhava para meu filho em meus braços, mas essas eram lágrimas de muito amor.”

 

 

 

“Um dia chorei porque não podia comer nada do que tinha... ai juntou com o problema do fungo no peito...”

 

 

 

“Quando cheguei em casa e me vi ‘sozinha’, só tinha o meu marido para me ajudar naquele dia, me deu um desespero muito grande, mas deu tudo certo na primeira noite. Depois eu chorava muito, me comovia com tudo e tinha medo de muitas coisas, como por exemplo meu marido foi fazer uma viagem e eu tinha medo dele não voltar. Dentre outras coisas, de não dar conta do recado.”

 

 

 

3. Considerações finais

 

 

 

A princípio o objetivo era resgatar tradições de pós-parto e comparar com os rituais exercidos nos dias de hoje pelas mulheres neste período da maternidade.  Mas aos iniciar as entrevistas com as mulheres do Grupo 1, muitas questões foram aparecendo e dando forma a perfis que se destacam num contexto histórico que favorecida ou desfavorecia o protagonismo da mulher diante dos principais eventos da maternidade: gestação, parto, pós-parto e aleitamento.  Foi então que surgiu a necessidade de contextualizar historicamente cada um desses grupos.  E foi este o objetivo da primeira parte do trabalho, contextualizar a situação da mulher na história do Brasil, desde a sua colonização até os dias de hoje. 

 

 

 

Não pode-se considerar este um trabalho finalizado.  Pode ser que tenha sido apenas iniciado e esta seja uma primeira versão.  Muitas análises ainda precisam ser feitas.  Foram realizadas apenas análises pontuais.  Faz-se necessária uma análise macro dos grupos e talvez seja necessário mais dados históricos, principalmente sobre o contexto regional dos grupos pesquisados.

 

 

 

Muitas questões ainda podem ser abordadas e outras entrevistas ainda podem ser realizadas para melhorar o campo de visão desses grupos.  Por exemplo, entrevistar mulheres do terceiro grupo que não desejassem partos normais.

 

 

 

Outra questão a ser aprofundada e a questão da religiosidade e como ela influencia na postura da mulher diante dos eventos da maternidade.

 

 

 

Referências

 

 

 

DESOUZA, Eros; BALDWIN, John R. e ROSA, Francisco Heitor da. A construção social dos papéis sexuais femininos. Psicol. Reflex. Crit. [online]. 2000, vol.13, n.3, pp. 485-496. ISSN 0102-7972.

 

 

 

LÉRY, Jean de. Viagem a terra do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia, São Paulo: Edusp, 1980. p. 225

 

 

 

MARQUES, Alan Max S. Blog: Devassa da História. Post: As Mulheres da terra e a colonização na América Portuguesa: Perversão, Pecado e Canibalismo. Dezembro 2007. Disponível em: http://devassadahistoria.blogspot.com.br/2007/12/as-mulheres-da-terra-e-colonizao-na.html

 

 

 

MOURA, Solange Maria Sobottka Rolim de  e  ARAUJO, Maria de Fátima. A maternidade na história e a história dos cuidados maternos. Psicol. cienc. prof. [online]. 2004, vol.24, n.1, pp. 44-55. ISSN 1414-9893.

 

 

 

VELHO, Manuela Beatriz; SANTOS, Evanguelia Kotzias Atherino dos; BRUGGEMANN, Odaléa Maria  e  CAMARGO, Brígido Vizeu. Vivência do parto normal ou cesáreo: revisão integrativa sobre a percepção de mulheres. Texto contexto - enferm. [online]. 2012, vol.21, n.2, pp. 458-466. ISSN 0104-0707.

 

 

 

Monografia de final de curso de formação em Doula Pós-Parto, elaborada por Tatiana Favaro Lima Schaper. Email: tatyfl@terra.com.br . 10 de Agosto de 2012, Vitória-ES

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

Featured Posts

ONDE ESTÁ?

July 6, 2017

1/1
Please reload

Recent Posts

April 20, 2020

December 2, 2019

Please reload

Archive
Please reload

Search By Tags