ENTENDENDO A FIGURA DA DOULA

Nos últimos anos, surgiu no Brasil uma nova “profissão”, a da doula. A palavra é estrangeira e vem da Grécia antiga. Segundo alguns ela quer dizer “mulher que serve” – parece que as doulas teriam sido as escravas que durante os partos de suas patroas prestavam alguma assistência. Há quem não se identifique com esta palavra e prefere chamar-se de acompanhante. Não há regulamentação da “profissão” da doula. A realidade é que a função da doula faz parte de uma forma de compreender as profissões que é pré-moderna.

Ser doula é uma sabedoria, não exatamente uma profissão como a entendemos hoje: você vai a uma escola e sai de lá com um diploma na mão e pronto para trabalhar. A doula podemos imaginá-la como a “aprendiz de feiticeira” que a “parteira-feiticeira” levava consigo em suas andanças pelos campos e vilas assistindo partos. Devia carregar sua bolsa, ferver a água, preparar os panos limpos, ajudar no que for preciso, permitindo à parteira estar mais presente na relação com a mulher.

A parteira era uma sábia que cuidava da saúde integral das mulheres, seu aprendizado acontecia ao longo de anos de experiência. E era esta sabedoria que, ao longo dos anos, passava à sua assistente. Esta sabedoria estava baseada na prática e na vivência, não em textos, discursos e em “lugares comuns”.

A função que se associa hoje às doulas é a de dar suporte às mulheres em trabalho de parto, suporte que é afetivo, físico, emocional e de conhecimento. A “doula” pode orientar, explicar, suavizar.

Há atualmente dois “tipos” de doulas: aquelas que atendem no serviço público e são voluntárias e aquelas que prestam um serviço particular e por isso são pagas. Os hospitais públicos com serviço de doula são uma pequena minoria no país. As maternidades que têm doulas, geralmente ofereceram um curso para mulheres voluntárias e as orientaram quanto às regras hospitalares daquela instituição de saúde de modo que essas mulheres se adaptem aos procedimentos que lá são adotados. Essas doulas têm turnos, assim como as enfermeiras, e dão suporte sem, porém, poder estabelecer um vínculo contínuo com a parturiente, visto que geralmente devem assistir mais de uma mulher ao mesmo tempo e elas têm um horário de entrada e de saída.

No serviço privado há dois tipos de doulas: as que vêm de uma longa experiência de vida e de trabalho, geralmente são mulheres que tiveram partos naturais e se envolveram com o campo; e as novas levas que estão surgindo recentemente no país, estas não necessariamente tiveram uma experiência positiva de parto e não têm experiência profissional anterior.

Os cursos de formação para doulas que estão atualmente no mercado são de três dias com mais um dia de “treino” no hospital, após o qual a pessoa é declarada pronta para a vender seus serviços como doula.

Há quem duvide da qualificação de uma profissional obtida em tão pouco tempo. A profissão de doulas não tem, por enquanto, estatuto jurídico ou legal. A questão da doula está vivendo uma fase confusa:

· Quais são os critérios para a qualificação de doula?

· Do que realmente uma mulher necessita para ser doula?

· Os homens podem ser “doulos”?

· A função que se atribui à doula não poderia ser exercida pelo pai?

· É importante que a doula tenha tido uma experiência pessoal do parto normal?

· É importante que ela saiba na pele o que é a dor de parto e o gosto de vitória por um parto ativo?

· A aspirante doula deve ter uma formação anterior (psicologia, fisioterapia, educação física, etc.)?

· O estágio de 1 dia em hospital oferece um estágio satisfatório para exercer a profissão?

· Qual é a função da doula, qual a da/o profissional e qual a da parturiente?

É importante que quem queira contratar uma doula reflita sobre esses itens. O mesmo cuidado que se deve ter na escolha do médico é necessário que se tenha na escolha de uma doula.

Adriana Tanese Nogueira, Psicanalista, filósofa, autora, educadora perinatal, fundadora da ONG Amigas do Parto. www.adrianatanesenogueira.org

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