MEDICALIZAÇÃO DO PARTO E DOULA

November 28, 2019


Historicamente, o parto passou por muitas modificações ao longo dos tempos, em decorrência da medicalização e dos avanços tecnológicos, e consequentemente com a evolução da medicina. A evolução que trouxe a queda da morbi-mortalidade materna e infantil trouxe também a transformação da parturiente a paciente sujeita a um pacote completo de intervenções médicas.


O parto, que antes era realizado no ambiente domiciliar por mulheres, parteiras ou

comadres, passou então a ser comandado por homens em instituições hospitalares e visto como algo terrivelmente perigoso, um evento patológico e que necessita de equipe técnica e instrumentação cirúrgica para assistência. O homem foi, então, dominando o parto com o avançar da medicina, trazendo alívio das dores e salvando vidas em perigo.


A parturiente que tinha total domínio de seu corpo e suas vontades no seu próprio ambiente, passou então a ficar a mercê de comandos médicos, imobilizada, sem direito a movimentação, alimentação, sem direito a sentir a própria dor, a escolher seus acompanhantes, a ficar na posição que se sentir melhor, e muitas vezes sem direito de não ser mutilada.


O bebê que antes ia direto para o seio materno ainda com o cordão pulsando, passou então a ser tratado como um ser em perigo, cortado do seu elo umbilical às pressas, aspirado, sacudido e levado para longe da mãe para avaliação, coleta de dados, injeções e largado em um berço frio em meio a muitos outros.


Enquanto em alguns países, o médico só atua em casos graves, atualmente, o cenário brasileiro beira os 80% de partos cirúrgicos em instituições hospitalares particulares. A nossa média nacional de partos normais é de 60%, sendo a maioria deste percentil de partos repletos de práticas desnecessárias usadas indiscriminadamente. Em alguns países, inclusive, o parto só é hospitalar quando há necessidade, em casos em que a gravidez é considerada de risco, e para os casos de gravidez dentro da normalidade incentiva-se o parto domiciliar, por apresentar menor custo e menor risco de contrair infecções.


Para contribuir com este cenário atual brasileiro, a mídia faz uma propagação maciça de imagens de partos sofridos, onde muitas vezes o   desfecho é a morte da mãe ou do bebê, de onde se extrai ainda mais a   imagem de que parto é sempre sinônimo de sofrimento e perigo constante, de tragédias.


Com o avançar da medicina, das técnicas cirúrgicas, dos medicamentos, e diante de todo o exposto anteriormente, poucas mulheres se encorajam a enfrentar o trabalho de parto, e com isto perdem seu mais importante rito de passagem. Perdem uma maternidade mais consciente desde o início em que se deixam levar por resultados dados por aparelhos, quando poderiam deixar aflorar a intuição feminina e se conectar com o próprio corpo. Muitas não percebem que o parto é delas, que a elas lhes foi dado este poder e que elas deveriam ser as protagonistas do evento mais importante das suas vidas, ao invés de delegar este acontecimento aos médicos.


Hoje em dia, muitas mulheres optam pela cesárea por medo da dor do parto, por medo das humilhações com as intervenções, medo de ser mutilada, por achar muito demorado e por serem enganadas por seus médicos. As poucas instituições que praticam o parto normal regularmente - geralmente trata-se de instituições públicas -, o praticam de maneira desumana, com episiotomias, analgesias, induções e muitas vezes com muitos maus-tratos, fazendo com que esta opção fique apenas para as que não dispõem de cobertura de um plano de saúde. 


Muitas das que desejam um parto normal, acabam sendo ludibriadas por seus médicos com falsas justificativas, e induzidas a fazerem o parto cirúrgico sob alegações infundadas. Muitas dessas alegações são: cordão umbilical enrolado no pescoço, grau de maturidade da placenta, pouco ou muito líquido amniótico, posição fetal, gestação prolongada, bebês muito grandes (macrossomia), prematuridade, diabetes gestacional, entre outras. Acabam confiando em quem deveria realmente atender seus pedidos e não se informam sobre as reais indicações para uma cesária, que quando bem indicada tem efeitos benéficos, que salvam vidas. 


Apenas uma pequena parcela de mulheres realmente luta e se empodera para ter seu tão sonhado parto normal humanizado, buscando informações sobre os tipos de parto, sobre as possibilidades, sobre seus limites reais, confrontando seus médicos e indo em busca de outros que as atendam e respeitem de verdade os seus desejos. E é aí que descobrem o que é uma doula e para quê ela serve. Aprendem o real sentido da palavra doula, que é a mulher que serve, oferecendo apoio afetivo, físico, emocional e informativo para as gestantes.


O que poucos percebem é que a doula, além do atendimento particular,   poderia ser muito útil em hospitais públicos, onde ainda se pratica e incentiva bastante o parto normal. Seus serviços seriam úteis tanto para as parturientes em trabalho de parto, que teriam suas dores amenizadas sem o uso de métodos farmacológicos, como para a instituição, que teria uma visível diminuição de gastos economizando material médico-hospitalar.


Ela entra em cena para atender as necessidades da mulher que pari, deixando-a mais a vontade em meio ao ambiente hospitalar e a pessoas   desconhecidas, que geralmente criam um certo medo e ansiedade na hora do parto. A doula, então, pode trazer-lhes mais conforto com massagens, com palavras de incentivo, colocando o pai para participar ativamente junto à mãe, satisfazendo as vontades da mulher, fazendo-a sentir-se acolhida, colocando uma música, deixando o ambiente aquecido, com poucas luzes, fazendo uso da água quente seja com banhos de imersão ou chuveirada, informando a parturiente sobre as melhores posições e ensinando técnicas de respiração e relaxamento, utilizando bola suíça, cromoterapia, auriculoterapia, moxabustão, todas as técnicas naturais possíveis para passar segurança e tranquilidade para a mulher trazer seu filho ao mundo de forma saudável, ativa e consciente, evitando assim o uso de analgésicos, de cortes desnecessários, do uso de fórceps, de medicamentos para indução, diminuindo as taxas de cesárias, a duração do trabalho de parto e das internações após o parto.

 

 

 

 

 

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

 

 

 

GOMES, Solange S. Vivências maternas sobre a participação da doula no parto. São Leopoldo, Unisinos, 2005.

 

VARGENS, Octavio; SEIBERT, Sabrina; et al. Medicalização x Humanização: O cuidado ao parto na história. UERJ, 2005.

 

http://www.amigasdoparto.com.br/doula.html

 

http://www.mundodosbebes.com/2010/05/conheca-os-diferente-tipos-de-parto/

 

http://vilamulher.terra.com.br/kaedi/parto-normal-hospitalar-ou-parto-normal-operatorio-com-direito-a-todas-intervencoes-9-4560571-136865-pfi.php

 

http://crisdoula.blogspot.com/2011/02/cordao-enrolado-no-pescoco-nao-e.html

 

http://guiadobebe.uol.com.br/o-que-sao-doulas/

 

http://bizoiem.blogspot.com/2011/04/o-que-e-uma-doula.html

 

http://blog.tuttimami.com.br/category/doula/

 

http://vbacdomiciliar.blogspot.com/

 

http://birthdoulasofpittsburgh.com/

 

 

 

 

 

Elis de Souza Freitas é farmacêutica e mãe, tem 29 anos, vive em Imbituba (SC), e realizou esse trabalho como monografia de conclusão do Curso Online de Formação de Doulas Parto. Julho 2011. Contato: ELIS.FREITAS@GMAIL.COM

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