A EVOLUÇÃO DO PARTO HUMANO E DA ASSISTÊNCIA AO PARTO

É difícil afirmar com precisão como se davam os partos na pré-história, mas estudos antropológicos sugerem que, no momento do parto as mulheres se afastavam do grupo, colocavam-se de cócoras, davam à luz os seus filhos, cortavam o cordão umbilical, queimavam a placenta e regressavam ao grupo seu bebê nos braços. As mulheres não tinham parceiro fixo, não conheciam a origem da gestação — possivelmente não relacionavam a gestação à atividade sexual. Não se conhecia a paternidade e os homens não se interessavam pelo parto, que era realizado sem ajuda da comunidade.

 

É difícil afirmar com precisão como se davam os partos na pré-história, mas estudos antropológicos sugerem que, no momento do parto as mulheres se afastavam do grupo, colocavam-se de cócoras, davam à luz os seus filhos, cortavam o cordão umbilical, queimavam a placenta e regressavam ao grupo seu bebê nos braços. As mulheres não tinham parceiro fixo, não conheciam a origem da gestação — possivelmente não relacionavam a gestação à atividade sexual. Não se conhecia a paternidade e os homens não se interessavam pelo parto, que era realizado sem ajuda da comunidade.


O que se vê na natureza é que as fêmeas de outras espécies animais fazem seus partos sem ajuda, mas o parto humano foi se modificando e  tornou-se bem mais difícil que nas outras espécies. Na passagem do hominídeo ao homo sapiens e o advento do bipedalismo, a pelve sofreu  muitas modificações: estreitamento do canal pélvico, aumento na espessura dos ossos e fortalecimento da musculatura do assoalho pélvico.


Além da constrição, o canal de parto passou por mudanças em seu formato: em corte transversal, não tem tamanho constante. Na primeira parte do canal de parto, onde o bebê encaixa para o nascimento, o eixo maior é de um lado ao outro do corpo da mãe. No meio do caminho o eixo mais longo passa a ser da frente para as costas da mãe.


Não fossem essas alterações suficientes para dificultar o processo de parto, houve ainda a expansão do cérebro dos hominídeos. O volume do cérebro do recém-nascido chegou próximo dos limites do canal ósseo e o encaixe justo entre a cabeça e o canal de nascimento, exige que o bebê humano faça uma série de torções e giros durante o parto para que as duas partes de seu corpo de maiores dimensões — a cabeça e os ombros — estejam sempre alinhadas com o maior eixo do canal.


As modificações evolucionárias da pelve e cérebro humano, também fizeram com que a maioria dos bebês saia do canal de nascimento virado para as costas da mãe, dificultando que a fêmea humana ajude seu bebê, durante o nascimento, com seus braços. É provável que, para compensar essas dificuldades, a seleção natural tenha favorecido o comportamento de buscar assistência durante o parto.


A história demonstra que a assistência ao parto teve início quando as próprias mulheres começaram a se ajudar e acumular conhecimento sobre a parturição. Este conhecimento era construído na prática e compartilhado por tradição oral. O parto era coisa de mulheres. A mulher mais experiente era reconhecida como parteira e atendia partos domiciliares. As posições verticais foram as mais usadas pelas mulheres em todas as culturas.


No século XVII ocorreu uma grande transformação, nasceu a obstetrícia e a ginecologia como especialidade médica e o parto passou ao domínio masculino. O parto passou a ser visto como um ato médico e a parturiente como paciente. Esta foi impedida de seguir seus instintos, de se movimentar durante o trabalho de parto e escolher a posição mais confortável. O médico, agora protagonista, colocou a mulher na posição litotômica, confortável para que ele acompanhe o parto.


A parteira não tinha pressa, observava e deixava a mulher agir apoiando-a física e emocionalmente durante o processo de parto, sem muitas intervenções. Não precisava de muita luz, equipamentos, medicamentos, equipes. Reconhecia o parto como um evento fisiológico  natural. O parto médico passou a ser atendido em um hospital, no qual os vínculos passaram a ser meros contatos superficiais e, às vezes, desrespeitosos.


O conhecimento científico, algumas práticas e instrumentos médicos são extremamente importantes e possibilitaram salvar muitas vidas, tanto de mães como de bebês. Mas muitas dessas práticas são necessárias apenas na assistência de partos de alto risco. E a grande maioria das gestações é de baixo risco.


O que uma parturiente de baixo risco mais necessita é de apoio, para que possa se sentir confiante e manter-se relaxada para enfrentar o processo de parto. Já que o estado emocional da mulher costuma ser o  grande responsável pela dor na hora do parto: o medo provoca a ativação do sistema nervoso autônomo que, por sua vez, causa um excesso de tensão no útero resultando na dor no parto. E diante da dor surge mais medo o que aumenta o círculo vicioso: MEDO-TENSÃO-DOR. A presença de um acompanhante preparado, seja um familiar e/ou uma doula, para oferecer esse apoio emocional pode proporcionar bem-estar a parturiente e facilitar o processo de parto.


Também é importante respeitar as escolhas de posição e movimentação da mulher durante o trabalho de parto. Em geral, a mulher não precisa, ou melhor, não deve permanecer imóvel no leito. Caminhadas e posições verticais favorecem a descida do bebê e podem reduzir o tempo de trabalho de parto. Além de possibilitar que enfrente a dor de forma ativa, por exemplo, buscando posturas mais confortáveis e/ou movimentos que lhe proporcionem alívio.


E caso a tensão e as dores se façam presentes pode-se recorrer a métodos não farmacológicos: exercícios respiratórios; movimentação (caminhada, mudanças de postura, dança, bola etc.); massagens e automassagens; música; contato físico (colo, cafuné, abraços etc.); banho (ducha e/ou banheira); baixa intensidade de luz e ruídos; respeito pelo desejo, tempo e escolha da parturiente; ajudá-la a perceber e confiar no próprio corpo, para saber identificar as próprias tensões, aprender a desfazê-las e alcançar o relaxamento e o prazer, para que com isso possa encontrar os próprios recursos para trazer seus filhos ao mundo.


Um programa de apoio à gestante e preparação para o parto visa aumentar a capacidade da gestante para aceitar o parto e o bebê, ajudá-la a elaborar melhor a situação presente, independentemente das possíveis experiências de desajustamento no passado.


É comum, por exemplo, que mulheres grávidas experimentem uma ambivalência afetiva, que ora desejem a gestação e o filho e ora não. Também que duvidem da sua condição, mesmo após uma confirmação clínica, ou fantasiem situações de aborto, o que pode levá-las a tentativas propositais ou “acidentais”. Após experimentar essa ambivalência afetiva, a mulher pode entrar num processo de culpa e novas fantasias, como a rejeição por parte do bebê, o que pode acarretar em problemas na relação mãe-bebê: dificuldade de contato, na amamentação.


Durante a gestação também é comum que as mulheres passem por períodos de medo, os mais diversos: de que o filho nasça com alguma deficiência ou doença grave, de morrer no parto, de sentir dor, de não suportá-la, de não voltar à antiga forma, de não voltar a ser desejável, de não saber cuidar do próprio filho, de não ser uma boa mãe etc. Se essa mulher não puder expressar e/ou compartilhar os seus medos (ou a culpa), não tiver a possibilidade de saber que não é a única a senti-los e não for apoiada e confortada nesses períodos pode chegar a um estado crônico de tensão (contração) que certamente será vivenciado pelo bebê em formação e dificultará o processo de parto.


A falta de conhecimento sobre as mudanças anátomo-fisiológicas do ciclo gravídico-puerperal também pode levar a gestante a fantasiar (imaginar que algo errado está acontecendo) e sentir medo diante de novas sensações: hipersonia, desejo e/ou aversões a alimentos, movimentos fetais ou a ausência deles etc. Por isso um bom método psicoprofilático na gestação deve tentar corrigir noções distorcidas, visando reduzir a ansiedade e o medo do desconhecido.


Outra medida importante é preparar a mulher para a participação ativa durante o trabalho de parto. Para isso será preciso informá-la, entre outras coisas, de:

· seu direito a ter um acompanhante de sua escolha na maternidade durante todo o trabalho de parto, parto e pós-parto imediato;

· seu direito de ser informada a respeito de qualquer procedimento ao qual queiram submetê-la, os motivos e conseqüências do mesmo, assim como, o direito a recusá-lo;

· que existem de procedimentos inadequados ainda adotados por alguns  médicos, tais como episiotomia, enema, tricotomia, administração de ocitocina para acelerar o trabalho de parto etc.;

· quais são sinais que indicam o início do trabalho de parto ou a necessidade de dirigir-se a maternidade (2 a 3 contrações a cada 10 minutos, rompimento da bolsa ou sangramento);

· quais são os tipos de parto e as vantagens e desvantagens de cada um deles;

· como é a fisiologia do parto;

· exercícios respiratórios e/ou posturas corporais que podem auxiliar no alívio da dor e colaborar com a evolução do trabalho de parto;

· exercícios respiratórios e/ou corporais que promovem o bem-estar na gestação e preparam o corpo para parto.


A gestante bem informada saberá exigir os seus direitos, quiçá através de seu acompanhante, assim como tirar proveito do seu sistema nervoso, dirigindo as reações musculares, relaxando na hora de relaxar, contraindo na hora de contrair, respirando melhor, enfim, se organizando para ajudar o seu corpo e seu bebê, além de não desperdiçar energia.


Comumente as gestantes, em especial as primíparas, apresentam outras fontes de preocupação e ansiedade relacionadas a dúvidas sobre a amamentação e cuidados com o bebê. Estes temas também poderão ser explorados durante o trabalho psicoprofilático, no qual se poderá ressaltar a importância de que a mãe seja a cuidadora principal deste bebê que dependerá dela durante algum tempo. Após passar nove meses dentro do útero, contido e/ou protegido pelo saco e líquido amniótico, aquecido e alimentado pelo corpo da mãe, não será fácil para o bebê separar-se do corpo dela, respirar por conta própria, passar de um ambiente líquido para um ambiente aéreo, ter o corpo solto no ar.


A amamentação tem muitas outras funções além da alimentação, ajuda no desenvolvimento da mandíbula, da língua, dos músculos da trompa de Eustáquio, o que reduz a incidência de otites, auxilia na clareza da fala, protege contra cáries dentárias e reduz o risco de problemas ortodônticos, proporciona calor, proximidade e contato, que podem ajudar o desenvolvimento físico e emocional da criança. Além das suas necessidades nutricionais, o bebê precisa ser satisfeito em suas necessidades de contato: ele precisa ser acalentado, acariciado, ter contato pele a pele, olho no olho, ouvir a voz da mãe etc.


Os temas de um programa de apoio às gestantes e/ou casais grávidos podem ser escolhidos junto com as gestantes para contemplar as suas dúvidas e, consequentemente, eliminar os fatores estressores. O programa pode ser renegociado durante o todo processo mediante de uma solicitação da gestante ou identificação, por parte do profissional, de alguma demanda das clientes. O acesso a informações  sobre o que se passa com o seu corpo durante a gravidez e o parto, entre outras, lhe dará oportunidade e sensação de controle sobre o corpo e maior segurança em ter o bebê, em enfrentar o parto.


A educação pré-natal teve início na década de 30 com o obstetra Grantly Dick-Read, que acreditava ser o estado emocional da mulher o  responsável pela dor na hora do parto. Essas mulheres, que podem ter  experimentado diversos medos, sentimentos de culpa e ansiedade durante a gestação e, consequentemente, as mais diversas tensões musculares, em geral, sentem mais medo ainda no momento do parto, já que socialmente se propaga que a dor do parto é uma das mais intensas.


Além poder proporcionar maior bem-estar durante a gestação e reduzir a dor no momento do parto, o método psicoprofilático pode influenciar no modo como a nova mãe irá cuidar do seu bebê. As experiências passadas da mãe são determinantes na construção do seu papel de cuidadora: a mulher aprende o repertório de comportamentos maternos durante a infância, através da observação e da brincadeira. Entretanto, como há uma regressão a padrões emocionais infantis durante a gestação, o apoio recebido durante a gestação e o parto pode lhe oferece um novo modelo: a maneira pela qual a mãe é tratada nesse período afeta o seu modo de cuidar de seu bebê. 

 

Uma gestação na qual a mulher se sente apoiada tende a proporcionar ao bebê uma boa experiência intra-uterina, assim como melhor qualidade de parto e maternagem, possibilitando um melhor desenvolvimento emocional nas primeiras etapas da vida. O que reforça a importância de se fazer uso de métodos psicoprofiláticos na gestação.

 

Andrezza Franzoni Alexandre é psicóloga e cantora, tem 32 anos e vive em Florianópolis. Este texto foi escrito para a conclusão do Curso de Formação de Doula Parto 2010. Contato: andrezza.psy@gmail.com

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