O TRABALHO DE UMA DOULA

December 2, 2019

Quando falamos em humanização do parto nos lembramos do papel da doula. A palavra doula vem do grego “mulher que serve” e seu papel hoje é reconhecido como aquela que auxilia com técnicas e apoio emocional mulheres em trabalho de parto. No contexto atual, esse trabalho torna-se fundamental pois a forma de nascer há muito deixou de acontecer da maneira natural, sofrendo inúmeras intervenções invasivas e prejudiciais o bom nascimento e a saúde da mãe e do bebê.


Essas intervenções deixaram marcas e alteraram a psique da mulher no sentido da confiança e tranqüilidade de assumir o parto normal. Hoje muitas mulheres têm dado preferência à cesariana por medo, desinformação e influencia médica. Nos partos normais hospitalares são realizados procedimentos de rotina altamente invasivos e até prejudiciais a mãe e ao bebê como tricotomia, enema, soro com ocitocina sintética, rompimento artificial da bolsa amniótica, etc. Nesses partos uma das práticas de rotina adotadas é a episiotomia. A musculatura do períneo sofre um corte para aumento da passagem do bebê com a justificativa de protegê-la. Porém, atualmente, os estudos realizados são suficientes para comprovar a não necessidade deste procedimento, haja vista que além de não proteger em nada o períneo, pode ser causa de inconvenientes futuros.


Os partos naturais realizados em domicilio ou mesmo em hospitais nos mostram que a natureza feminina é perfeitamente capaz de suportar a passagem de um bebê pela abertura vaginal, salvo poucas exceções. Nesse sentido a presença de uma doula e a utilização de técnicas bem aplicadas pode não só tornar este movimento mais tranqüilo, como também evitar as possíveis lacerações naturalmente ocorridas.


O apoio oferecido pela doula tanto físico quanto emocional podem ajudar a parturiente a superar suas forças internas e uma maior abertura no sentido físico e psíquico para o momento do nascimento. Digo psíquico também porque observamos casos onde a havia todo um contingente favorável ao nascimento natural mas percebe-se a dificuldade da entrega, da abertura que é necessária ser permitida pela mulher no movimento do nascimento.


A doula pode oferecer a parturiente o apoio, as palavras de incentivo, o conforto e, também, utilizar-se de técnicas não medicamentosas para diminuição da dor e relaxamento do períneo no momento expulsivo do parto. Essas técnicas podem ser os exercícios realizados com a bola suíça, onde a parturiente pode realizar movimentos que ajudam na abertura da pélvis e massageamento da região do períneo. Pode ser feito também a massagem do períneo e utilização de compressas de água morna para auxiliar na abertura.


A posição vertical para o momento do nascimento também é outra prática que deve ser incentivada pela doula. Estudos comprovam que a posição litotomica não favorece o nascimento natural aumentando as chances de procedimentos invasivos na hora do parto. Por sua vez a posição vertical favorece a descida e o pressionamento da musculatura pélvica o que ajuda muito na passagem do bebê pelo canal de parto.


A água morna é outra prática que a doula pode oferecer a gestante para alívio das dores. O efeito relaxante de um banho quente favorece a dilatação e acalma. O próprio nascimento quando possível e em condições seguras pode ocorrer dentro da água. Neste momento tanto a mãe como o bebê podem se beneficiar da água morna e normalmente bebês que nascem na água permanecem mais tranqüilos.


As doulas sendo sensíveis e bem preparadas para o momento do parto, oferecem uma ajuda acolhedora, respeitando acima de tudo a vontade da parturiente. Quando mais informada e preparada for a gestante melhor receberá este apoio. O nascimento na verdade é o ápice de todo um processo que quanto mais possibilidades de ser vivenciado e trabalhado tiver, melhor a conjunção com o trabalho de uma doula no momento em que se efetiva.


Citando alguns casos:

*não foram realizados acompanhamentos de parto destas gestantes, porém a gestante, seus parceiros ou outra pessoa da confiança da mulher foram trabalhados nos grupos de pré-natal.


Gestante 1:


M., 42 anos, terceira gestação.

M. começou a participar das reuniões do grupo de pré-natal já no final da gestação. Havia passado por uma cesariana e um parto normal. Sentia-se desanimada por estar passando por problemas conjugais. Seu companheiro não compareceu às reuniões porém a mesma depois de conhecer nossa proposta de trabalhar as questões do nascimento natural freqüentou todas as reuniões até o momento final. Escolheu como sua acompanhante de parto a agente comunitária de saúde que era também sua conhecida. Foram trabalhados exercícios de relaxamento, técnica de visualização, massagens e respiração.

Era oferecido um espaço de verbalização e M. se manifestava com freqüência. Ao final de seu processo, em seu último encontro no grupo, M. sentia-se confiante de suas capacidades e caminhou com segurança para o nascimento de seu bebê.


Gestante 2:

C. 23 anos, primigesta.

C. recebeu atendimento individual em psicoterapia. Chegou ao serviço de saúde muito agitada, apreensiva e gravidez recentemente descoberta. Foi atendida por uma profissional que após algumas sessões achou melhor encaminhá-la para o atendimento comigo por considerar a necessidade de um trabalho voltado para as questões da gestação, parto, vínculos e papéis.

C. em seu primeiro atendimento com a nova psicóloga estava apreensiva. Sua situação conjugal bem como sua vida no geral eram instáveis. A mesma não conseguia fazer contato e “curtir” sua gestação. Tinha um quadro de insônia e usava medicação controlada. Sobre o parto C. manifestou horror ao parto normal principalmente por causa da questão da dor.


Após alguns encontros onde foram trazidas as questões pessoais de C. mais informações sobre o parto, trabalhados exercícios, respiração e massagem, a mesma vem conseguindo uma boa abertura ao tema. Sente-se mais confiante e a cada encontro sua inclinação ao parto normal aumenta. Já não sente mais o pavor de outrora e tudo lhe parece mais próximo e possível.


No momento encontra-se no sexto mês de gestação.


Nos dois casos citados, apesar de não ter sido realizado o trabalho de acompanhamento de parto, foi realizada uma preparação prévia para a gestante. Cada uma delas teve a oportunidade de sentir-se amparada, ter os seus medos acolhidos e reconhecidos e de desfrutar de informações e técnicas de preparo e apoio a gestação e ao nascimento.

Estes dois casos nos demonstram que os momentos, e, portanto as necessidades de cada mulher irão variar de acordo com a sua história de vida e contingências atuais. Porém, o trabalho de uma doula consiste em poder reconhecer, acolher e oferecer ajuda neste momento tão sublime na vida de uma mulher.

 

Sabemos que as conseqüências de um parto natural quando conseguido e explorado em sua potencialidade é profundamente transformador na vida de qualquer mulher. Nesse sentido o acompanhamento de uma doula pode fazer toda a diferença neste momento.

 

Carolina Alves Silva é psicóloga e doula. Esta é sua monografia final do curso Formação de Doulas Parto, 2010. Carolina vive em Vitória, ES.

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

Featured Posts

ONDE ESTÁ?

July 6, 2017

1/1
Please reload

Recent Posts

April 20, 2020

December 2, 2019

Please reload

Archive
Please reload

Search By Tags