DIVULGAÇÃO OU DESCOBRIMENTO: O PAPEL DA DOULA

December 6, 2019

Envolvida no universo feminino entre o papel profissional e membro de família, a mulher vive por escolha própria, com liberdade ou não, uma gravidez e parto. Na cidade como na zona rural, atentamos quão distintas essas experiências e escolhas podem ser.

É comum encontrar no interior, a mulher trabalhadora rural, com plantação de subsistência, que pariu seus múltiplos filhos. O primogênito e os que lhe sucedem muito facilmente

nasceram nos lares, com a assistência da irmã mais velha, ou mãe, ou sogra; e os mais novos foram gerados por assistência hospitalar com intervenções médicas.


O parir tornou-se diferente porque antes podia estar acompanhadas de suas amigas e tinha a liberdade de movimento dentro de casa. Seus caçulas fez-lhe experimentar  isolamento e o ambiente hospitalar.


Entretanto na alta para casa no pós parto, há o retorno do papel da irmã mais velha, mãe ou sogra que a apóia agora na amamentação exclusiva e sustentam o leite materno até mais de 1 ano.


A mulher que vive na capital pode até ter seu emprego e escolher se quer ter filho ou não. Nascem os unigênitos ou gemelares por reprodução assistida. E no instante do parto , vê-se sozinha ou com seu companheiro na ausência de pessoas que lhe cedam apoio emocional , psicológico para viver de maneira positiva este momento.


Mas, se na região rural existem essas mulheres que fazem falta no vazio da maternidade, no momento especifico do pré parto, onde encontra-las na cidade?


Há muitos anos mulheres assistiam ao parto, na presença de parteiras. Sua presença favorecia o trabalho de parto, diminuindo os períodos de dilatação e o desconforto da dor das gestantes. Desde os primórdios da humanidade foi se acumulando um conhecimento empírico, fruto da experiência de milhares de mulheres auxiliando outras mulheres na hora do nascimento de seus filhos. 1


Dá-se o nome de doula a essas mulheres que apóiam as mulheres antes, durante e após o parto.  A palavra “doula” tem origem grega e quer dizer “mulher que serve”, através das pesquisas de Marshall H. Klauss e John H. Kennel no inicio da década de 90 o nome vem sendo difundido para esta função no parto, já sendo citada pela antropóloga Dana Raphael sobre as mulheres nas Filipina.


As doulas desenvolveram métodos não farmacológicos benéficos para a gestante que favorecem o trabalho de parto de conduta expectante. Sem ocupar papel de partejo ou assistência obstétrica, ela faz presença significativa para as grávidas que tem conhecimento e contato com elas.


Torna-se companhias para compartilhar o trabalho de parto, e presença na hora e parir. Sem estar substituindo a família, afinal, a doula buscar envolver todos os membros da família junto com a mãe para que o vínculo familiar seja mantido.


Diante dos medos e ansiedades da geração de um novo ser, o toque da doula, as orientações dadas por ela, ou as manobras e movimentos citados pela mesma, trazem confiança e coragem para persistir até a expulsão do bebê, mesmo a mulher estando exercendo toda a resistência física para parir.


Talvez esta atividade esteja mais envolvida em populações que vivem em comunidades, povoados, ou mocambos extintos, pois o coletivo está mais presente e apoio ao próximo mais freqüente. Sendo esta atitude o que hoje em dia relacionamos à humanização do parto.


Para as pessoas que buscam conhecer e exercer atitudes humanizadas com o binômio mãe-filho durante o parto, depois de pesquisas constantes e atualizadas sobre educação perinatal que objetiva orientar mulheres para uma gravidez e parto consciente; e sobre soluções para redução de cesáreas desnecessárias na rede particular, onde muitas mulheres grávidas convivem numa sociedade onde há ausência das acompanhantes terapêuticas, encontramos contatos de doulas , somente no momento em que elas participam de curso para gestantes.


Admito dificuldade em comentar ou desenvolver discursões sobre o tema: doula, exercício que nunca vi em minha região. Mas reconheço que as ações são muito favoráveis e resolutivas diante de um processo fisiológico de parir.


Após tradução de pesquisas de outros países, comprovando que as atribuições das doulas favorecem a diminuição das taxas de cesárea,

 da duração do trabalho de parto, dos pedidos de anestesia, do uso da oxitocina e do fórceps no parto, evidenciou-se cientificamente as suas condutas.2 Dando valor para estudos e apresentações na categoria dos profissionais de saúde.


Através das técnicas e massagem e pressão corporal especialmente na região lombar e perineal 3 para aliviar a dor, ela acalenta a mulher no seu limiar de dor;  compressas térmicas: frias ou quentes para confortar e anestesiar manualmente as “cadeiras”; posições de conforto variando na altura e posição da criança , favorecendo o tempo de trabalho de parto; exercícios e posturas, enfim conhecimentos antigos do censo popular que precisam ser escritos em mais artigos para serem publicados com importância científica e favorecer a divulgação da importância da doula.


Contudo ainda aplica-se técnicas de relaxamento, visualizações e pontos de pressão que diferente da realidade da região nordeste, me admiro ao ler sobre o assunto, mesmo não tendo conseguido executá-los juntos. Acredito que a experiência das gestantes seja bastante profunda e intríseca. Praticando a visualização , vi resultados favoráveis no comportamento das mulheres no pré-parto, conversando sobre a imagem do bebê que estava flutuando, girando, chutando e soluçando durante alguns meses na barriga e que agora quer nascer, e está nascendo!


Mesmo tendo uma nomeclatura desconhecida , infere-se que a doula esteve presente com atuação diminuta nos hospitais onde existem as parteiras hospitalares. À medida que o tempo foi passando e os médicos foram sendo assoberbados pelas demandas de parturientes, estas profissionais deixaram de ser as acompanhantes terapêuticas para assistir o parto e partejar.


As parteiras hospitalares acabam procedendo com condutas hospitalares claramente prejudiciais ou ineficazes e que deveriam ser eliminadas e freqüentemente utilizadas de forma inapropriadas , como classificadas pela OMS (Organizzação Mundial de Saúde) nas recomendações no atendimento do parto normal.


Talvez a essência da companhia foi substituída e o papel de doula foi desfeito. Hoje por lei, é atribuição específica do médico ou a enfermeira obstetra a assistência obstétrica no parto e puerpério.


Abre-se espaço para a atuação, do modo terapêutico funcional comprovado por pesquisas científicas, da doula.


Seria necessário detalhar para funcionários antigos em maternidade, que algumas atitudes abandonadas por muitos profissionais dentro da instituição direcionados ao atendimento da gestante após o parto no puerpério, são atitudes de uma profissão muito antiga vinda de outros povos.


A vontade de acompanhar a mulher, independente do parto; o toque terapêutico; as palavras amigas e confortantes de mulheres mais experientes; o apoio após o nascimento, são ações de doulas. Bastou apenas comparar.


A necessidade contínua de aperfeiçoar os atendimentos nas maternidades poderia incluir treinar e adotar doulas dentro das intituiçoes. Afinal, a doula não  interfere no atendimento ou execução de protocolos hospitalares, ela complementa a parte do emocional e psicológico que vaga no instante do internamento até o pós-parto.


Aproveitar as mulheres, que há muito tempo estão incluídas na maternidade como referencia para muitas mulheres que pariram com sua companhia, mais velhas ou novas para torna-las doulas. Ou capacitar as parteiras hospitalares para aprenderem novas técnicas humanizadas de assistência obstétricas.


Quando voltamos a entender o comportamento das mulheres isoladas na região rural, aquelas mulheres que já auxiliavam no parto de outras, como lido em textos  referencia sobre doulas, descrevemos as ações das parentes próximas das mulheres parida. Eram elas quem permaneciam junto com as parteiras no momento do parto domiciliar no sítio ou fazenda. Que se deslocam de cavalo, ou de carroça, ou caminham quilômetros para chegar até a mulher que está na “sua hora”.


Utilizam de linguagem leiga e calma sobre o que está acontecendo durante o parto, dando-lhes dicas sobre comportamento e posições para parir, utilizam matos e ervas para dar força e puxos, orientar não gritar para que a criança não suba, panos quentes com água em cuia, enfim, métodos humildes de técnicas sugestivas compartilhada entre doulas.


Algumas dessas mulheres não têm noção nenhuma de como fazer um parto. Mas o intuito de apoiar suas parentes a parir  sem medo ou trauma é de se destacar .


Pode não se tratar de uma descoberta sobre esta atividade que já existe há séculos, divulgada em manuais de saúde universais , citada em palestras e conferências . Mas de uma correlação de atitudes humanas e respeitosas diante das gestantes que agora podemos organizar em condutas específicas cujo nome denomina-se Doula.


Referências


1. ANDO. Associação nacional de Doulas. Siet: www.doulas.org.br

2. Kennel, Klaus y Kennel (1993), cit in The Doula Book : How a Trained Labor Companion Can Help You Have a Shorter, Easier and Healthier Birth. Phyllis Klaus and John Kennell ,Perseus Press, 2002

3. SIMPKIN, P. The birth partner everithing you need to know to help a woman through childbirth..

4. BELTRÃO, R. Manejo da dor no trabalho de parto.

5. MALLIN, M.. Ser doula, porque y para que.

6. Maternidade Segura : Assitência ao parto normal, um guia prático. OMS.

7. LEMBO, M; GAVIA, S. Descripción de posiciones para el trabajo de parto y parto.

 

Fernanda Raquel Gomes, 25anos, enfermeira obstetra, Aracajú (SE). Email de contato: feragomes@yahoo.com.br. Monografia Final de conclusão do curso de Capacitação de Doulas 2008 da ONG Amigas do Parto.

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