DOIS PARTOS CESÁREA. NECESSÁRIOS?

September 11, 2020

 

Não levei em conta que sou mulher, minhas necessidades não foram ouvidas por mim, e não me preparei melhor para ser mãe.

 

Tenho bem guardado o sentimento de gratidão por ter duas filhas e tudo o que elas significam para mim. Independentemente da maneira como chegaram, tê-las e acompanhá-las é a melhor parte. Porém, hoje, após uma década do segundo parto cesárea, me dou conta, de verdade, de como a maneira que um filho chega ao mundo faz sim diferença na vida de ambos (mãe e filho). E essa conta, no meu caso, ficou cara, pelo tempo que demorei a ver e sentir a dor da minha própria ignorância.

 

Culpa? Hoje não mais. Porém responsabilidade sim, porque as escolhas foram minhas, mesmo que inconscientes, e hoje respondo por elas, e respondendo me sinto no dever de compartilhar para que procedimentos desnecessários não se repitam. E por que somente agora, dez anos depois? Porque esse dar-se conta veio numa avalanche profunda de sentimentos sobre como foi pra mim aquilo que seria um recurso auxiliar (a intervenção obstétrica) e que virou um sistema criado artificialmente para deturpar o que a natureza é em si, e tudo o que com ela deveríamos aprender, e não modificar.

 

Em 2006, recém casada, eu levava uma vida ansiosamente “normal”. Trabalhava 8h por dia, estudava à noite. Já vinha de uma desconexão interna e pensava precisar manter essas tarefas para viver. Não levei em conta que sou mulher, minhas necessidades não foram ouvidas por mim, e não me preparei melhor para ser mãe. Os trinta anos se aproximavam, eu não queria postergar mais a maternidade. Soltamos as rédeas e logo engravidei.

 

Almejei o parto normal, mas o obstetra me desiludiu já do oitavo mês em diante, disse que eu não tinha perfil para parto normal, minha barriga estava muito alta, o bebê era grande e tantos outros argumentos a favor de seus serviços. Com 38 semanas ele quis planejar a cesárea, bastante usual numa época de mais cesáreas do que partos normais nos hospitais. Fiquei acuada, no meu time só tinha eu, sem referência alguma de parto humanizado e com históricos de parto normal da família nada tranquilos. Sem tempo, sem conhecimento e sem segurança interna me submeti à vontade do médico: uma data marcada, ao menos meu esposo junto, uma sala cirúrgica fria, equipe pronta, e iniciou-se a cirurgia.

 

Minha primeira filha não participou ativamente do seu próprio nascimento, foi retirada antes, sem uma necessidade justificável. Um parto aparentemente tranquilo e indolor. Mal sabia eu que aquela aparente falta de dor traria dores ainda maiores, por exemplo, a dor de pagar o preço por não dialogar com a realidade natural. Passei a primeira noite com minha filha, cuidando dela, no senso de assumir o papel de mãe e longe de uma recuperação rápida, não sabia ainda dos efeitos daquela anestesia, e desde aquela noite até 40 dias após, tive cefaleia pós-raqui, tendo que tomar analgésico fortíssimo já saindo do hospital. O leite demorou a “descer”, dois dias. Como ela chorava muito, ainda no hospital foi dado o “complemento”. Soma-se a isso, como se sabe, a recuperação da cirurgia: 15 dias sem andar direito, sem poder tossir e espirrar direito, e com dor. A cicatrização levou ainda meses. Obviamente não mergulhei totalmente na maternidade como deveria. Minha filha sofreu, não houve uma conexão tranquila. Embora minha família tenha feito o seu melhor para me dar suporte, eu é que não estava tranquila e entregue no meu novo papel, estava cheia de preocupação, ansiedade e dores.

 

Passaram-se quase três anos, engravidei novamente. E tive aquela esperança de que poderia ser diferente porque nesse interim pude me informar um pouco melhor. Mas o que não consegui foi parar e encontrar um profissional acessível que pensasse em termos de parto humanizado. Ainda eram poucos. A pediatra da minha primeira filha me indicou então um outro obstetra. Fui percebendo que o acompanhamento dele não era tão diferente do anterior. Mas a questão era saber a possibilidade de um parto normal, afinal já se fazia três anos do primeiro parto. Porém não demorou muito para ouvir dele que um parto normal seria muito arriscado devido ao meu assoalho pélvico já ter sido costurado, três anos seria pouco, segundo ele, e logo indicou a cesárea.

 

Questionei, disse que pelo menos esperaria para saber o momento de o bebê querer nascer, não agendaria antes. Percebi, sutilmente, que a maneira dele falar mudou. Percebi que ele não valorizou a minha vontade e continuou com sua linha de atendimento. A mim, parecia que era ele quem conhecia meu corpo melhor que eu. Fiz mais alguns contatos na esperança de mudar de médico, sem sucesso. Me vi sem opção. Seguimos. No último pré-natal, depois de ter trabalhado, era quase noite, três dias antes da data prevista de nascimento, ele disse para agendarmos a cesárea o quanto antes. Eu disse que esperaria o bebê dar o sinal para então ir ao hospital. Ele disse que “jogaria as toalhas” e não se responsabilizaria caso acontecesse alguma coisa. Eu disse: “tudo bem”, não discuti, e fui embora. Saí do consultório, olhei a lua, linda e cheia. Suspirei. Fui pra casa. Não sabia por que tinha que ser assim e também não tinha mais tempo para pensar muito a respeito.  

 

Às 22:30h, depois de arrumar algumas roupas, fui ao banheiro e notei um pequeno sangramento. Pensei ter sido por causa do exame pré-natal. Chamei meu esposo que já estava dormindo. Estávamos bem cansados. Resolvi esperar e me deitar. Não estava sentindo dor. Às 2h, sonhando com piscina, acordei sentindo a umidade nas pernas. Chamei ele de novo, estava na hora de ir para o hospital. Minha filha de três anos, àquela hora da noite obviamente não lembrou do que tínhamos combinado (ela iria para casa da tia) e, chorando aos prantos, quis ir junto com a gente. Sem muito tempo para pensar, e já sentindo as primeiras contrações, decidimos ir todos. Eu já sabia então que meu esposo não acompanharia o parto. Só não sabia o que estaria me esperando.

 

Chegando ao hospital, fui caminhando já encurvada com dor para a sala de preparo. Meu esposo foi para um quarto com nossa filha. Não me lembro de todos os detalhes do lugar. A enfermeira de plantão me deu roupas, me deitou numa mesa. Chegou a médica obstetra de plantão, também grávida e com muito sono. Perguntou se eu queria parto normal, eu disse que sim, se possível. Resisti em ligar para o médico que me acompanhou, ainda na esperança de evitar a cesárea. A médica então me examinou e disse que apesar das contrações, não tinha dilatação suficiente, teria que esperar mais. A enfermeira me levou para uma sala escura (tinha mais uma paciente por ali, deitada) e lá me deixou também deitada, disse que se precisasse poderia tocar a campainha.

 

E lá fiquei, não me lembro quanto tempo aguentei, mas as contrações eram cada vez mais intensas, eu não tinha mais posição suportável e sentia frio. Toquei a campainha. A enfermeira veio, me ofereceu um banho morno no chuveiro. Aliviou tanto que ficaria debaixo daquela água por muito tempo, mas não soube pedir, e nem sabia que seria muitíssimo benéfico. A enfermeira fez sinal para desligar o chuveiro e obedeci. Voltei encurvada para a mesma cama e aos poucos voltei à mesma situação de antes. Aguentei mais um tempo, o quanto pude, rezei, respirei, mas sem apoio, agora vejo, é muito difícil. Toquei de novo a campainha, pedi pela obstetra. Ela me examinou e disse que a dilatação ainda era insuficiente até mesmo para induzi-la com medicamento. Relutante, decidi esperar mais um tempo. Até que não aguentei mais, as contrações estavam fortes e com intervalos curtíssimos. A obstetra veio, perguntou o que eu queria fazer, então pedi para chamar o médico que me acompanhou, não tinha mais como pensar. Em meia hora ele chegou, já com a instrumentadora. Me examinou e confirmou que a dilatação era insuficiente e que já estava formando bossa na cabeça do bebê (até ali eu nunca tinha ouvido falar nesse termo). “Vamos fazer a cesárea?” “Sim,” eu disse. Naquele contexto, o que eu menos queria era colocar em risco a vida da minha filha. E fomos para a sala de cirurgia. Procedimentos, anestesia, cirurgia.

 

Minha filha nasceu assim, após às 6 da manhã de um inverno rigoroso. Pedi para vê-la, puxando a cortina verde em cima da minha barriga. Nas mãos dele ela estava com o pescoço e braços caídos, sem movimento, silenciosa. Fiquei assustada. Vi que ele a massageava e nada. Levaram-na rapidamente para outra sala, certamente para procedimentos. O silencio agoniante continuava e eu a todo minuto perguntava, “Cadê minha filha? Não ouço ela chorar.” Ele, continuando a cirurgia, me dizia para ficar calma. Mais um minuto de eternidade e ouço um choro, que era dela. Alívio. Na finalização da cesárea uma médica trouxe minha filha já embrulhadinha em panos para eu ver que ela estava bem, me mostrou rapidamente sem encostar e disse que ela precisaria leva-la para a incubadora para aquecer e oxigenar. Consegui relaxar um pouco e continuei ali ouvindo as conversas do médico com a instrumentadora, algo tão corriqueiro para um momento tão marcante. Duas eternas horas depois de esperar em uma outra sala, me levaram para o quarto, e trouxeram ela para meu colo. E ainda hoje aquela sensação ecoando na minha mente: “Cadê minha filha?” Só uma mãe entende isso.

 

A recuperação foi parecida, dessa vez me cuidei melhor e não tive cefaleia pós-raqui.

Não sou contra o parto cesárea. Pode salvar muitas vidas, como um recurso auxiliar, desde quando seja uma opção além daquela que deveria ser a principal, e ainda assim qualquer opção deveria ser sempre humanizada.

 

Esse relato está mais longe de criticar e mais perto de conscientizar. Primeiro a mim mesma, que passei por tais experiências e só agora vejo e sinto de verdade o seu significado. Segundo, aos profissionais que acompanham esse momento tão importante, e muitos que ainda nem se dão conta do seu papel crucial. Terceiro, a quem ler e puder ver as nuances que se tornam tão perceptíveis no processo de gestação e parto, início que ecoa numa vida inteira.

 

Raquel Lima

Curitiba/PR

02/07/2020

 

 

 

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